quarta-feira, 4 de abril de 2012

Manuel Gonçalves

Meu irmão semeador
Lembram Deus os gestos teus:
Semeias pão, com amor,
Eles, as estrelas dos céus...

(-Bendito seja o suor
Que de um homem faz um deus!)

*

Fosse eu ditador um dia,
Mas que bem que governava!
Pobre ou rico só comia
Do pão que em paz amassava.

(-Mas que bela tirania,
Nunca o povo a derrubava!)

*

Trouxe-me a fome à cidade
Mas quero ir morrer na aldeia
Antes que aperte a saudade
E me mate em terra alheia.

(-Mais vale fome em liberdade
Que banquetes na cadeia!)

*

Só há sempre uma despedida
Se o regresso é sempre incerto,
Sempre, nos longes da vida,
Quem ama está sempre perto.

(-E há sempre esperança, escondida,
Nas miragens do deserto!)

Estas cantiguinhas de quadra e meia são da autoria de Manuel Gonçalves, poeta do Baixo Alentejo, já falecido. São objecto de um artigo de João Honrado no seu livro Textos Alentejanos. É suposto que as cantiguinhas de quadra e meia deste autor estejam já publicadas em livro, pela Cooperativa Cultural Alentejana.

terça-feira, 3 de abril de 2012

António Aleixo

O Outro Jogo

Diz ele que não sei ler
Isso que tem? cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saiba ler e escrever.

P'ra escolas não há bairrismo.
Não há amor nem dinheiro.
Porquê? porque estão primeiro
O futebol e o ciclismo!

Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.

Da educação desportiva,
Que nos prepara pr'a vida,
fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter pr'a ceia nem pão, nem conduto.

Loulé, 1978

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Ruy Belo

Na morte de Nicolau

José Maria Nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha.

Ele que várias vezes deu a volta a Portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real.

Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa muito subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor José Maria Nicolau.

domingo, 1 de abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012

Maria Pimentel Montenegro

Pedra de Xadrez

Fui pião e cavaleiro
deste jogo de xadrez.
Percorri o tabuleiro
em jeito diagonal
pela mão da fantasia.
Mas surgiu a dama preta
mais o bispo transversal,
e perdi a minha vez.

Já dei cheque-mate ao rei
e desde então até agora
(por meu bem ou por meu mal)
sou torre de pedra branca,
firme, erecta e vertical.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Frei João de Nossa Senhora

No Rossio se faz festa
Na Vitória pregação;
Pouca gente assiste nesta,
Mas naquela multidão.

Três vezes divertimento
Bem se pudera escapar
Tanto rir, tanto folgar
Pode parar em tristeza.

Na doutrina de Maria
Tenha Lisboa certeza,
Que toda a sua alegria
Há-de parar em tristeza.

Frei João, era um frade xabregano, opositor das touradas que se faziam em Lisboa, no Rossio. Estas quadras, disparou-as no decorrer de um ofício religioso na igreja da Vitória, enquanto decorria uma dessas touradas.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Fialho D'Almeida

Dei três voltas ao castelo,
Sem achar por onde entrar,
-Soldadito d'armas brancas,
Vist'lo por aqui passar?

Esse soldado, senhora,
Morto está no areal;
O corpo tem-no na areia,
E a cabeça no juncal...

Três chagas tem no seu corpo,
E todas três são mortais:
Por uma entra o sol,
E por outra entra o luar.

Pela mais pequena delas
Entrava águia real,
Com suas asas abertas,
Sem as ensanguentar.

Três chagas tem o seu corpo,
E todas três são mortais...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Agostinho Neto

Havemos de voltar

Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossas terras
vermelhas do café
brancas do algodão
verdes dos milheirais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso Carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À angola libertada
Angola independente

Cadeia do Aljube, Outubro de 1960

terça-feira, 27 de março de 2012

Agostinho Neto

Campos verdes

Os campos verdes, longas serras, ternos lagos
estendem-se harmoniosos na terra tranquila
onde os olhos adormecem temores vagos
acesos mornamente sob a dura argila,

seca, como outrora minguou a doce esperança
quente, imperecível como sempre o amor
sacrificada, sangrada na lembrança
do esforço bestial do látego opressor.

Em campos verdes, longas serra, ternos lagos
refulgem ígnias chamas, rubros rugem mares
cintilando de ódio, com sorrisos em mil afagos

São as vozes em coro na impaciência
buscando paz, a vida em cansaços seculares
nos lábios soprando uma palavra: independência!

Cadeia do Aljube, Setembro de 1960

segunda-feira, 26 de março de 2012

Florbela Espanca

Dos beijos que me teste não te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas...
Folhas de Outono e correria louca...

Mas inda um dia, em mim, ébrio de cor,
Há-de nascer um roseiral em flor,
Ao sol de Primavera doutra boca!