quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

António Maria Eusébio, o Calafate



Um livre pensador para o sino

Oh! Sino da freguesia
Que estás sempre a badalar
Estás-me sempre atormentando
Nunca cessas de tocar.

És meu vizinho que aí estás
Exercendo o teu emprego
Perturbando o meu sossego
E o incómodo que tu me dás.
Não sei quem seja capaz
De acabar tal agonia.
Tinhas melhor serventia
Para andares mais corriqueiro
Se fosses feito em dinheiro
Oh! Sino da freguesia.

às vezes de madrugada
Tocas de teu alto trono,
Interrompendo meu sono
Com inferneira escusada.
Sino não serves para nada
Serves para me apoquentar.
Para me fazer levantar,
O teu toque era escusado
És um intrujão sagrado
Que estás sempre a badalar.

Se dobras sinais de rico,
Apoquenta-me o teu dobre
Se tocas sinais de pobre,
Mais apoquentado fico.
Os teus sons me mortificam
Sejam alegres ou chorando.
Cada vez que estás tocando
Na cabeça me dás choques
Com teus beatos toques


Para haver qualquer festinha,
Ou mesmo ofícios divinos
Escusava de haver sino
Bastava uma campainha.
Tocas pela manhãzinha
Tocas para me inportunar.
Tocas depois do jantar
Tocas de tarde e à noite
Para meu castigo e açoute
Nunca cessas de tocar.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

António Maria Eusébio, o Calafate



Já fui operário artista

Já fui operário artista
Agora, já pouco valho;
Comprem-me algum papelinho,
Em paga do meu trabalho

Glosa

Já gozei a mocidade
Esse bem tão precioso,
Fui homem laborioso
E trabalhei de vontade.
Já servi na sociedade,
Já fui homem moralista,
O meu vulto já fez vista
No seio das classes pobres,
~Já fui nobre ao pé dos nobres,
Já fui operário artista.

Já tive as mãos calejadas
Do muito que trabalhei,
Meus braços atormentei
Com ferramentas pesadas.
Tive horas amarguradas,
Joguei, rasguei o baralho,
Hoje apanho algum retalho
Que a ambição deixa cair,
P'ra pouco posso servir,
Ahora já pouco valho.

Até ando ameaçado
De fome ainda passar,
Por a um homem estimar,
A quem estou obrigado.
Sou pobre velho e cansado,
Estou no fim do meu caminho;
Poorque sou do Zé povinho,
Não devo ser esquecido,
Seja qual for o partido,
Comprem-me algum papelinho.

Nunca fiz ruins papeis
Nem andei pondo cartazes
Nem atirei aos rapazes
Com moedas de dez réis.
Falem, pois, os infieis,
Chamem-me velho, espantalho;
Como, agora já não valho
De tabaco uma pitada,
Levo alguma bofetada
Em paga do meu trabalho.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Manuel Maria Eusébio, o Calafate

Nunca fui mal procedido

Nunca fui mal procedido,
Nunca fiz mal a ninguém,
Se acaso fiz algum bem,
Não estou d'isso arrependido.
Se mau paga tenho tido,
São defeitos pessoais;
Todos seremos iguais
No reino da eternidade;
Na balança da igualdade
Deus sabe quem fez mais.

"o Calafate viveu o seu tempo; dramatizou-o e contou-o com o imenso talento que se lhe reconhece"
"Num homem sem instrução de espécie alguma, a não ser a que espontaneamente colheu na prática da sua longa vida, é admirável esta sua maleabilidade de talentos, e esta facúndia métrica."
Arlindo Mota

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Romeu Embaixador

Crença de um Povo

Ouvi aos velhos do mar
que, em noites de lua cheia,
As ninfas se aproximavam,
Para ouvir cantar a sereia.

Dessa doce melodia,
Dessa canção divinal,
Ainda hoje a baia
Tem um perfume frugal.

Refrão
Crença de um povo
Com origem na ralé
Que usava cinta e barrete
Como o velho Zé André

A Lua ainda te visita
E cobre-te com o seu manto.
Piscosa, a eterna bemdita,
É bem divino o teu canto.

Chamar-te-ei, puro amor,
No seu eterno cantar,
Das deusas a mais formosa,
Oh! afrodite do mar.

sábado, 21 de novembro de 2009

Romeu Embaixador

Pescador do alto mar

Pescador do alto mar
Que pretendes tu buscar
Que abandonas o teu lar?

Não vês que a última aresta
Que teu sentir manifesta
É divindade que resta?

Já lá rompe a lua cheia
Ouço o cantar da sereia
Trazes o pão que granjeia

Quantos tormentos passaste,
A quantos deuses rogaste
Mas de voga já voltaste

Trazes o pão que ganhaste
Com que teus filhos criaste
No fadário que arrostaste

Romeu Embaixador, nasceu em 1922

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Rafael Augusto Rodrigues



Pinhal Novo como eu te vi
Quando para cá vim morar
Bons momentos eu vivi
Para hoje recordar.

Gosto de ti a valer
Pinhal Novo és-me tão querido
Jamais serás esquecido
Nos anos em que eu viver.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Rafael Augusto Rodrigues



"O Comboio Era a Vapor"

O que hoje vos vou contar
Tem para mim muito valor
Porque comecei a trabalhar
Quando o Comboio era a vapor.

Na Estação, É dada a Partida...
Pondo-se logo em andamento,
Com Velocidade estabelecida
Até ao próximo afrouxamento.

Corre... Corre... Corre...

A sua missão é andar,
Atravessando Vales e Montes
Começando logo a Apitar
Ao aproximar-sa das Pontes.

Quando vai numa subida
Já andando lentamente
Preparando-se de seguida
Para uma nova pendente.

É vê-lo ganhar Velocidade
Rangendo, Chiando e apitando,
Para falar com verdade
Parece que vai galopando.

Isto era antigamente,
Com a Máquina a Vapor, Fumegando...
Lançando o fumo no ar
Parecendo, de vez em quando,
Ouvi-la a resfolgar.

Ou por vezes sussurrando...
Devagar, devagar, devagar,
Quando se vai aproximando
Da próxima Estação, pr'a parar.

Parando em obediência
À paragem estabelecida
Para cumprir sua missão
Sendo-lhe dada nova Partida,
Pelo Chefe da Estação.

Abalando de seguida
Dando sempre a mesma imagem
Quando se aproxima nova subida
Até à seguinte paragem.

Sempre ele vai apitando
Ouvindo-se lá do alto da Serra
Nos sons que vai lançando:
Pouca Terra... Pouca Terra... Pouca Terra...

Comboio que foste inventado
Para servir as Populações
Hoje és tão mal tratado
Sofrendo muitas contestaçoes.

E esta a tua imagem,
Do Comboio já Lendário
Sendo esta a Homenagem
Dum Antigo FERROVIÁRIO.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rafael Augusto Rodrigues



"primeira carta escrita após ter chegado a Évora quando me fui apresentar no Quartel de Artilharia Ligeira Nº.1"

Quando entrei na Carruagem
Já o Comboio ia a andar
Passei por minha Casa
Vi minha MÃE a chorar.

Quando cheguei a Évora
Fui direitinho ao Quartel
Para despir o meu fato
E deixar de ser RAFAEL.

Ali me deram um papel
Com números, assim dizia:
És o Trezentos cinquenta e cinco
Da SEXTA BATARIA.

Depois de receber a FARDA
Com roupa de todo o tamanho
Fiz uma Trouxa com tudo
E fui logo tomar banho.

Depois de tomar o banho
E ficar bem lavado
Vesti a minha Farda
E então já era SOLDADO.

No outro Dia às Seis Horas
Lá estava tudo a pau
Preparados para beber
A CANECA do BACANAu.

O Rafael, nasceu em Moura, em 1923. Ferroviário, reformado, é uma figura muito popular no Pinhal Novo (e não só), terra onde reside há dezenas de anos, e onde continua a participar activamente na vida social e política. Para além de poeta,dedica-se à guarda de instrumentos de trabalho - que usou na sua vida profissional - os quais se encontram expostos no seu museu pessoal.

sábado, 14 de novembro de 2009

Domingos manuel Correia Lopes

Algas

Jardins desfolhados sem piedade
seres desabrigados sem sustento
ao ver enorme crueldade
evoco meu grito meu lamento.

Negros fantasmas esfomeados
ignorando tamanho mal
assim vivendo dos seus pecados
como se fosse tão natural.

Massacrando assim a natureza
um pouco deles próprios destruindo
pequeninos a imaginar tanta grandeza
vão sau própria imagem denegrindo.

É hora de dizer amigos basta!
e ensinar a quem vier atráz
já que a fome e a guerra se arrasta
deixai o fundo do mar em paz.

Domingos Lopes "Xoxinha", natural e residente em Sesimbra, nasceu em 1946. Tem apenas a 4ª. classe do Ensino Prímário

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Florinda Maria Farinha Mata Garrafa

Primavera

Voltai Primavera com teu corpo morno
Encher Céus e Terra com brisa de côr
E com raios de sol fazer um adorno
Para mostrar ao mundo todo o teu explendor.

Em bandos de côr voltai andorinhas
Dando voz aos prados com seus chilreados
Sobrevoai os Céus já não estão sózinhas
Sulcando a terra já estão os arados.

Voltai borboletas colhendo o pólen
De cravos rubros e já germinados
Surgem malmequeres aqui e além
Em campos desertos mas já semeados.

Vem primavera em cor deslumbrante
Com teu corpo morno aquecer a rua
E o pescador faz-te sua amante
Quando vai pescar em noites de lua.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Florinda Maria Farinha Mata Garrafa

"Aos filhos da droga"

Mãe que sofreste ao teu filho parir
Não te arrependas de o ter feito nascer
Deitás-te ao mundo uma flor por abrir
Todo o seu mal foi não saber viver.

Foi uma flor que ao mundo veio pura
E que pela vida se viu desfolhada
Ele caminhando pela noite escura
Mas no fim da estrada há a madrugada

Mãe que sofreste ao teu filho parir
Dá-lhe o teu carinho e o teu amor
E no seu coração faz-lhe sentir
Que a vida é bela e não é só dor.

Foi vítima da droga essa flor
Mas teu filho, não deixou de o ser
Estende-lhe a mão ergue-o com amor
O amor é forte e há-de vencer.

Florinda, é natural de Sesimbra, nasceu em 1951, tem apenas a 4ª classe do ensino primário

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Augusto Pinto Sobral

"Retrato"

Sesimbra os meus amores
Terra de sonho e poesia,
Dá-te o mar perfume e flores
Que são algas e marezia.

Tu és tão linda e tão bela
Que até Camões te cantou,
E és a mais rara aguarela
Que a natureza pintou.

Tão bonita e tão prendada
Que as tuas águas tão mansas
E a tua praia adorada,
São brinquedos de criança.

Na praia de lés a lés
Muito calmo e docemente,
O mar curvando a teus pés
Te beija constantemente.

O verde brando do mar
O azul do céu sobre o monte,
São telas que se confundem
Na linha do horizonte.

Vê-de a côr do sol nascente
E o céu rubro do Sol-pôr,
Só sabe sentir quem sente
Não ter nascido pintor

No cimo do velho castelo
Parece dizer, sorrindo...
Venham ver o que há de belo
Num panorama tão lindo!

...

Augusto Sobral, natural de Sesimbra, nasceu em 1914.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Maria Eufrásia Gomes Pólvora Santos

"Sonho"

Sonhei com um dia diferente
Do dia que já passou
Sonho como toda a gente
Ter o dia que sonhou.

Mas o dia que sonhei
Cheio de paz e alegria
Mas nele não encontrei
Um sonho de um novo dia.

Mas esse dia sem fim
Que eu sonhei que era diferente
Só foi dia para mim
Mas não para toda a gente.

Mas o sonho se acabou
de manhã ao acordar
Mas esse dia findou
Sem chegar a começar.

Maria Eufrásia tem 67 anos. Possui apenas a 4ª classe do ensino primário.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Encarnação Sousa Silva

Apenas Recordo em Ti

Sesimbra vive o progresso
Com grande satisfação
Eu quase já não conheço
Essa Sesimbra de então

Clara nascer do sol
Rcordando dou-te apreço
Desde a ponta do farol
Do castelo à mina do gesso

Nas serras já tenho estado
Pensando junto de ti
Parece que oiço o passado
Como te lembras de mim

E vejo minha terra inteira
A Assenta inda lá fora

A Assenta inda lá mora
Com a sua estrada à beira
E transportes sem demora

A Assenta inda lá mora
Que paz tinha a repousar
Findaram rios e fontes
Que vinha adoçar o mar

E nestas serras remotas
Que o sol as vem abraçar
Lindos bandos de gaivotas
Eu via nelas poisar

Mas a verdade prevalece
Agora és mais linda assim
Há coisas que nunca esquece
Por isso recordo em ti.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Encarnação Sousa Silva

O Pescador e o mar

Uma nuvem veio poisar
Sesimbra linda sem par
que Deus criou com amor
p'ra ser rainha piscosa
os espinhos e a rosa
deste povo pescador

Vive o teu pensamento
A voz em todo o momento
do mar que é tua paixão
partes lá vais sem temor
é a vida do pescador
percorrendo a imensidão

Chamam-te lobo do mar
porque és louco a trabalhar
nós sabemos como és
que mesmo arriscando a vida
lá vais na rota batida
com rumo a outras marés

Começa de pequenino
cada um com seu destino
combatendo com o mar
esta gente encara a vida
por distâncias sem medida
sem saber se vai voltar

Mas logo ao cair da noite
regressas e sempre afoito
trazes na alma a vitória
por seres pescador sem medo
tens a arte e o segredo
da pesca que é tua glória.

Encarnação Silva é natural de Sesimbra, nasceu em 1932 e possui apenas a 3ª classe do ensino primário. Sesimbra e o mar são temas que aborda com toda a ternura.

domingo, 1 de novembro de 2009

Edmundo Reis

Virtudes

Se fosse possível pesar
As virtudes e os defeitos
Podia avaliar
O valor de alguns sujeitos

As virtudes e os defeitos
São os humanos que os têm
Umas mais, em alguns sujeitos
Outros, não os assume ninguem

Virtudes todos nós temos
E os defeitos também
Mas muitas vezes não vemos
O que somos, mal ou bem

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Edmundo Reis

A vida do pescador

Pescador que vais ao mar
Com as redes no porão
No barco a navegar
Para ganhar o teu pão

Vais lançar as tuas artes
Lá para o fundo do mar
Para ganhares as tuas partes
Do peixe que se pescar

Leva a corda retenida
O mestre a vigiar
Arriscando sua vida
Nas grandes ondas do mar

A viagem é prolongada
Numa embarcação costeira
Anda até de madrugada
A bordo de uma traineira

Se a companha é unida
Das partes que se apurar
É p'ra ser distribuida
Do valor que vem do mar

Mas às vezes corre mal,
Do pescado que se apanha
Baixa o preço e, no final
Pouco rende p'rá companha

Por isso o pescador,
Um valente marinheiro
Apesar do seu valor
Recebe pouco dinheiro

Há dias em que piora
O preço da lota, ofende
Deita-se o pescado fora
P'ra quem pesca, nada rende

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Edmundo Reis

Por onde anda o fado

De rua em rua andei
Fui à procura do fado
Mas não mais o encontrei
Não o vi em nenhum lado

O fado que era vadio
P'rós salões já se mudou
Munca mais ninguem o viu
Na rua onde murou

Hoje,temos bons artistas
Mas, estão do povo afastados
Já não vejo os fadistas
Na rua cantando fados

É que o fado nos salões
Não tem chama popular
Está longe das multidões
Que querem ouvir cantar

Cantem fadista p'ró povo
Quadras soltas e singelas
Tragam o fado de novo
P'rás ruas e p'rás vielas

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Edmundo Reis

Edmundo Reis

A verdade e a mentira, qual delas gosta mais?

A verdade é relativa
Seja lá ela qual fôr
A mentira é negativa
Tal como é o seu valor

Seja sincero
Diga qual você mais gosta
Dirá sempre, p'ra mim quero
Que a verdade seja reposta

Mas volto a perguntar
Lida bem com as verdades?
É que, algumas podem causar
Alguns estragos e maldades

Também gosto que a verdade
Seja sempre toda dita
Sou pela sinceridade
Acho a mentira maldita

Mas há quem
Toda a verdade não diga
Porque entende que faz bem
P'ra não criar uma briga

A verdade às vezes doi... e bem
Por uma tragédia conter
E assim ainda há quem
Minta, p'ra não fazer sofrer

Edmundo Reis, 67 anos de idade. Operário textil da CUF, foi durante muitos anos dirigente do Sindicato dos Texteis e Vestuário. Até esta data, não publicou nenhum dos seus poemas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Modesto Martins Lopes


Versos a minha Mãe

Tenho a minha Mãe doente
Quase que paralizada
Era forte, era valente
Já não tem força p'ra nada

-

Só espera a hora da morte
Aquela que me é tão querida
A doença, atacou forte
Pouco lhe resta de vida

-

Ao ver sofrer quem me criou
Com tanto carinho e amor
É de certeza que sou
Como ela um sofredor

-

Não quero de maneira alguma
Que alguém chore os meus ais
Mas porque Mãe há só uma
Se a perco, não a tenho mais

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Modesto Martins Lopes

Dedicada a sua avó depois de morrer

A poesia mais feliz
Que me transmite mais dó
E que revela mais saudade
Foi um poema que fiz
Dedicado à minha avó
Com 95 anos de idade

Ao recordar essa velhinha
Vergada ao rigor dos anos
Relembro o muito que perdi
Essa relíiquia muito minha
Era a rainha dos humanos
O melhor que conheci

Era a mãe do meu pai
A raiz do meu sangue
Que a velhice matou
O passado já lá vai
Mas a lembrança se expande
Na saudade que deixou

Durará sempre a imagem
Do amor do grande afecto
Dos carinhos que me deu
Fica em versos a homenagem
Prestada pelo seu neto
Num poema que escreveu

domingo, 25 de outubro de 2009

Modesto Martins Lopes

Distraído

Sou um pouco distraído
Confesso que é normal
Talvez seja por desleixo
Que tudo me corre mal

Muitas vezes em companhia
As conversas de momento
Passam para o esquecimento
Na vida do dia a dia
Por causa da letargia
Tenho erros cometido
Por ter falta de sentido
Não evito a confusão
Oiço e não presto atenção
Sou um pouco distraído

Sem fugir à responsabilidade
Do que sou possuidor
Sou às vezes perdedor
Da justiça e da verdade
Penso em tudo facilidade
Como o acto mais banal
Esta conjugação afinal
Foi alguém que ma deixou
Porque ser assim como sou
Confesso que é normal

Nasci assim tributado
De certo que é condão
Por imperícia ou decisão
Tenho sido prejudicado
O período do passado
Foi de terrível desleixo
É só desse que me queixo
Foi mau o tempo vivido
Mas o que tenho sofrido
Talvez seja por desleixo

Não desgosto do meu porte
Apesar de erros conter
Quem segue mesmo a sofrer
Dá sinal do que é forte
Pode ser que um dia a sorte
Não se encontre marginal
Nessa altura crucial
Tenho o futuro comigo
E não digo a um amigo
Que tudo me corre mal

sábado, 24 de outubro de 2009

Modesto Martins Lopes



Televisão

Não sei como as coisas são
Para andar bem informado
Comprei uma televisão
Não devia ter comprado

Pensei ser um grande amigo
O aparelho que comprei
De certo que me engansi
Passa o tempo não lhe ligo
Suportá-lo não consigo
è arma da reacção
Dentro da nossa nação
É um instrumento perigoso
Não sei como as coisas são

É um móvel de fantasia
Da propaganda americana
Onde raivosamente se irmana
A política da burguesia
Sem saber o que fazia
Dei dinheiro mal empregado
Fiquei assim enganado
A maldade nela ressalta
Comprei porque me fazia falta
Para andar bem informado

As famosas telenovelas
Há dias que são aos pares
A destruição de muitos lares
É espelhada por elas
São isto fortes mazelas
Que trazem a podridão
Para quem tem noção
O seu valor é um zero
Para ver o que não quero
Comprei uma televisão

Seria um caso de envergadura
Com um sentido correcto
Se ajudasse o analfabeto
No caminho da cultura
Era uma escala segura
Se não pendessem só para um lado
Com um esquema transfigurado
A televisão era um bem
Como disse nada tem
Não a devia ter comprado

Modesto Lopes, nasceu em 1940 em Vale de Água, Santiago do Cacém. Tem apenas a 4ª classe do ensino primário elementar. Começou a poetar aos 11 anos. Assume que os seus poemas contêm elementos autobiográficos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

António Aleixo

Tu que vives na grandeza,
Se calçaces e vestisses
Daquilo que produzisses,
Andavas nu, concerteza

-

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!

-

Esta mascarada enorme
Com que o mundo nos aldraba,
Dura enquanto o povo dorme,
Quando ele acordar, acaba.

-

Com uma gravata mermelha?!...
Tem cuidado, não te esqueça:
-Que Salazar aconselha
Muitas cores menos essa.

-

Queria a Tunísia e a França;
Mas apanhou tal derrota,
Que já pôs termo à cagança
-Ficou reduzido à "bota"... (a)

a)A Mussolini, quando a Itália foi derrotada no norte de África

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

António Aleixo

Vós podeis chamar-me louco;
Domocrata; socialista...
E comunista também.
Que sou de tudo isso um pouco,
Pois sou uma coisa mista
Do bom que tudo isso tem!

-

Nem mais vem, como desejo,
Um mundo novo, perfeito;
Só fechando os olhos, vejo
Tal desejo satisfeito...

-

Que esperança será aquela
Que sinto desde criança,
Que ainda dou restos dela
Aos que já não têm esperança?!

-

Abusas do teu poder,
Puseste-me uma mordaça
P'ra eu não poder dizer
Quem fez a minha desgraça.

-

Tu andas cheio, eu vazio;
Tens à escolha o que quiseres.
Comes o melhor que eu crio,
Eu como o que tu não queres

-

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

António Aleixo

Riem d'outras com desdém
Certas damas bem vestidas;
Quantas, para vestir bem,
Se despem às escondidas!

-

Certas viúvas discretas,
De luto pesado em cima,
Lembram cachos de uvas pretas,
A pedir outra vindima.

-

A prima Maria Chica
'stá gorda, perfeita e bela;
E não precisa ser rica,
Tem a fortuna com ela!...

-

Você é tão pequenino,
Que um dia, quando casar,
Estará deitado na cama
E a mulher não o há-de achar.

-

Os padres são neste mundo
O melhor que há p'ra comadres;
Podem ser bons, mas no fundo,
P'ra mim são apenas padres.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vós, que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos, que pode o povo
Querer um mundo novo a sério!

(António Aleixo)




















Para a mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem de trazer à mistura,
Qualquer coisa de verdade.

António Aleixo, será provavelmente o poeta popular português - e grande improvisador - mais conhecido e divulgado no país. A sua poesia, simples mas profunda, revela uma forma sábia de reflectir a condição humana e sobre si próprio.

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço,
Que, não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poetas Populares

Este espaço tem por objectivo, acima de tudo dar a conhecer os Poetas Populares Portugueses. Foi iniciado com o Mote de umas décimas criadas, faz muito tempo, pelo autor, nascido em 1901 na povoação de S. Brissos, freguesia de Santiago do Escoural. Não sabia ler nem escrever, Foi trabalhador agrícola e carvoeiro. A sua poesia inspira-se nos trabalhos do campo e na vida dos trabalhadores.
Diz-me agora aqui burguês
Quem é que tanto te deu
Quando tu vieste ao mundo
Vieste nu como eu

(José Augusto Ferrão)