quinta-feira, 19 de abril de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Todo o produto é de quem sua
A corja rica o recolheu.
Queremos que ela o restitua
O pobre só quer o que é seu.
Numa pequenina aldeia
Escutem trabalhadores
Uns aos outros vão dizendo
Não mais escravos nem senhores.
(cantiga que se cantava cerca de 1918 pelos trabalhadores rurais alentejanos, cantada por Mariana Francisca Chaveiro, na recolha de depoimentos para a obra Os Trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo, de Francisco Canais Rocha Maria Rosalina Labaredas)
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Domingos Fialho Barreto
O Pescador:
Sou dos lados de Milfontes
Minha labuta é no mar
Com a morte sempre à vista
Onde há lindos horizontes
Minha labuta é no mar
Sou dos lados de Milfontes
O Mineiro:
Nos Lombadores em Padrões
Na mina vou trabalhar
Nas profundezas da terra
Sujeito a mil baldões
Nos Lombadores em Padrões
O Lenhador:
Faço lenhas e carvão
Subo às árvores pràs cortar
Tenho a desgraça a um passo
Se delas cair ao chão
Subo às árvores pràs portar
Faço lenhas e carvão
O Pescador:
As friezas e maresias
Nunca me vão perdoar
Sinto as juntas rangendo
São dores de noite e de dia
Nunca me vão perdoar
As friezas e a maresia
O Mineiro:
Aquele pó do minério
Já sei que me vai matar
Vou sentindo o peito seco
Só me resta o cemitério
Já sei que me vai matar
Aquele pó do minério
O Lenhador:
Eu tenho mesmo destino
Já me custa a respirar
É esse gás do carvão
Junto ao pó negro e fino
Já me custa a respirar
Eu tenho mesmo destino
O Pescador:
Desde que o barco solta
Seja ou não a remar
São redes linhas e bóias
Dá-se mil e uma volta
Seja ou não a remar
Desde que o barco solta
O Mineiro:
Ganhar o pão é custoso
O mineiro não tem par
Rebentando a dura pedra
Só ar quente e humidoso
O mineiro não tem par
Ganhar o pão é custoso
O Lenhador:
Arrancada uma azinheira
Tem trabalhos a dobrar
Picar galhos serrar toros
Pró abegão e lareira
Tem trabalhos a dobrar
Arrancada uma azinheira
O Pescador:
Igual aos pombos-correios
Tenho de me orientar
Seja de noite ou de dia
Às vezes com mil rodeios
Tenho de me orientar
Igual aos pombos-correios
O Mineiro:
A mina é uma masmorra
Condenado pra ganhar
O pão do dia-a-dia
Estou eu até que morra
Condenado pra ganhar
A mina é uma masmorra
O Lenhador:
Quase não ganho prà roupa
Sujo estou por mais lavar
Os lenhos tudo me rompem
Sabendo que tenho pouca
Sujo estou por mais lavar
Quase não ganho prà roupa
O Pescador:
Chega de lamentações
Só já nos falta chorar
Falando das nossas vidas
Sem ver causas nem razões
Só já nos falta chorar
Chega de lamentações
O Mineiro:
A causa está à flor
Nem é preciso pensar
É o poder explorando
Sem justiça nem amor
Nem é preciso pensar
A causa está à flor
...
Sou dos lados de Milfontes
Minha labuta é no mar
Com a morte sempre à vista
Onde há lindos horizontes
Minha labuta é no mar
Sou dos lados de Milfontes
O Mineiro:
Nos Lombadores em Padrões
Na mina vou trabalhar
Nas profundezas da terra
Sujeito a mil baldões
Nos Lombadores em Padrões
O Lenhador:
Faço lenhas e carvão
Subo às árvores pràs cortar
Tenho a desgraça a um passo
Se delas cair ao chão
Subo às árvores pràs portar
Faço lenhas e carvão
O Pescador:
As friezas e maresias
Nunca me vão perdoar
Sinto as juntas rangendo
São dores de noite e de dia
Nunca me vão perdoar
As friezas e a maresia
O Mineiro:
Aquele pó do minério
Já sei que me vai matar
Vou sentindo o peito seco
Só me resta o cemitério
Já sei que me vai matar
Aquele pó do minério
O Lenhador:
Eu tenho mesmo destino
Já me custa a respirar
É esse gás do carvão
Junto ao pó negro e fino
Já me custa a respirar
Eu tenho mesmo destino
O Pescador:
Desde que o barco solta
Seja ou não a remar
São redes linhas e bóias
Dá-se mil e uma volta
Seja ou não a remar
Desde que o barco solta
O Mineiro:
Ganhar o pão é custoso
O mineiro não tem par
Rebentando a dura pedra
Só ar quente e humidoso
O mineiro não tem par
Ganhar o pão é custoso
O Lenhador:
Arrancada uma azinheira
Tem trabalhos a dobrar
Picar galhos serrar toros
Pró abegão e lareira
Tem trabalhos a dobrar
Arrancada uma azinheira
O Pescador:
Igual aos pombos-correios
Tenho de me orientar
Seja de noite ou de dia
Às vezes com mil rodeios
Tenho de me orientar
Igual aos pombos-correios
O Mineiro:
A mina é uma masmorra
Condenado pra ganhar
O pão do dia-a-dia
Estou eu até que morra
Condenado pra ganhar
A mina é uma masmorra
O Lenhador:
Quase não ganho prà roupa
Sujo estou por mais lavar
Os lenhos tudo me rompem
Sabendo que tenho pouca
Sujo estou por mais lavar
Quase não ganho prà roupa
O Pescador:
Chega de lamentações
Só já nos falta chorar
Falando das nossas vidas
Sem ver causas nem razões
Só já nos falta chorar
Chega de lamentações
O Mineiro:
A causa está à flor
Nem é preciso pensar
É o poder explorando
Sem justiça nem amor
Nem é preciso pensar
A causa está à flor
...
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Manuel João Manços
"Pão de amargura comido
é mel n'alma deprimida
Nunca te dês por vencido
por sofrer muito na vida
Tens de soltar um grito
um grito de alerta,
nesta província deserta
de terras abandonadas:
-Acabem com as coutadas!"
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Eugénio de Andrade
Alentejo
Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo
o branco obstinado.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Eugénio de Andrade
A caminho de Beja
Chega ao fim o enlouquecido
amarelo dos girassois;
chega ao fim extenuado.
Só o branco,
o branco enraivecido
da cal.continua a sangrar
nos flancos - como um toiro ferido.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Manuel Gonçalves
Meu irmão semeador
Lembram Deus os gestos teus:
Semeias pão, com amor,
Eles, as estrelas dos céus...
(-Bendito seja o suor
Que de um homem faz um deus!)
*
Fosse eu ditador um dia,
Mas que bem que governava!
Pobre ou rico só comia
Do pão que em paz amassava.
(-Mas que bela tirania,
Nunca o povo a derrubava!)
*
Trouxe-me a fome à cidade
Mas quero ir morrer na aldeia
Antes que aperte a saudade
E me mate em terra alheia.
(-Mais vale fome em liberdade
Que banquetes na cadeia!)
*
Só há sempre uma despedida
Se o regresso é sempre incerto,
Sempre, nos longes da vida,
Quem ama está sempre perto.
(-E há sempre esperança, escondida,
Nas miragens do deserto!)
Estas cantiguinhas de quadra e meia são da autoria de Manuel Gonçalves, poeta do Baixo Alentejo, já falecido. São objecto de um artigo de João Honrado no seu livro Textos Alentejanos. É suposto que as cantiguinhas de quadra e meia deste autor estejam já publicadas em livro, pela Cooperativa Cultural Alentejana.
terça-feira, 3 de abril de 2012
António Aleixo
O Outro Jogo
Diz ele que não sei ler
Isso que tem? cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saiba ler e escrever.
P'ra escolas não há bairrismo.
Não há amor nem dinheiro.
Porquê? porque estão primeiro
O futebol e o ciclismo!
Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.
Da educação desportiva,
Que nos prepara pr'a vida,
fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.
E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.
Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.
Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.
E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter pr'a ceia nem pão, nem conduto.
Loulé, 1978
Diz ele que não sei ler
Isso que tem? cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saiba ler e escrever.
P'ra escolas não há bairrismo.
Não há amor nem dinheiro.
Porquê? porque estão primeiro
O futebol e o ciclismo!
Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.
Da educação desportiva,
Que nos prepara pr'a vida,
fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.
E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.
Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.
Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.
E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter pr'a ceia nem pão, nem conduto.
Loulé, 1978
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Ruy Belo
Na morte de Nicolau
José Maria Nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha.
Ele que várias vezes deu a volta a Portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real.
Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa muito subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor José Maria Nicolau.
José Maria Nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha.
Ele que várias vezes deu a volta a Portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real.
Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa muito subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor José Maria Nicolau.
domingo, 1 de abril de 2012
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