segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

José Vicente

Soltas

Como queres tu que eu siga
A tua religião
Se na boca trazes Deus
O Diabo no coração

Tantas promessas já temos
P'ra pôr termo aos nossos ais
Mais promessas já não queremos
São já promessas a mais

Vivo... mas, sem ter vivido
No mundo p'ra se viver
Já tarde compreendi
Que é preciso aprender

Aldrabas e batentes

Setúbal

domingo, 19 de dezembro de 2010

José Vicente

Soltas

Enquanto existir maldade
Enquanto houver avareza
Amor próprio egoísmo
Não há pura liberdade
Não findará a pobreza
Não haverá socialismo

Do ventre d'uma mulher
No final de nove meses
Nasce um ser já construido
É triste ter que dizer:
-Mais valia certas vezes
Certo ser não ter nascido

sábado, 18 de dezembro de 2010

José Vicente

Segundos de vida

Quem veio ao mundo e morreu
No momento de nascido
Foi belo o destino seu
Foi feliz em ter morrido

Foi alguém que existiu
Que o mundo não conheceu
Um ser que ao chegar, partiu
Não fez sofrer nem sofreu

Não viu o mundo tão belo
Tanta beleza que há
Nem conheceu o flagelo
D'uma sociedade má

Foi vela que se apagou
Após se ter acendido
E após se arrecadou
Com tão poucochinho ardido

Aldrabas e batentes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

José Vicente

Soltas

Com a força da vontade
Com a razão, com o querer
A ânsia da Liberdade
Tem mais força que o poder

Muita gente, tanta gente
Se diz s'tar mentalizada
E mostra constantemente
Mentalidade falhada

Um mundo que causa horror
Com guerras constantemente
Seria um mundo melhor
Se o homem fosse diferente

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

José Vicente

Morreu o ti Zé Vicente
Qualquer dia é voz geral
Já não faz versos à gente
Nem do mundo já diz mal

José Vicente nasceu em 1907 no Barreiro, passando a residir na Baixa da Banheira em 1941. Teve por profissão operário corticeiro mas também pescador, A sua instrução não passou da antiga 3ª. classe. Muito próximo da sua morte escreveu a quadra, acima, que constitui o seu próprio epitáfio.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Joaquim Vicente Vedor Paulino

Poema à Baixa da Banheira

Terra de tantas culturas,
nas horas calmas e duras,
há muita ponderação.
Está sempre tudo à "maneira"
sendo a Baixa da Banheira
terra da minha paixão.

A noite é doce e terna,
oiço cantar na taberna, 
o Alentejo querido,
fico sempre emocionado,
o coração destroçado,
abandonado e esquecido.

Baixa da Banheira é terra,
cujo coração encerra,
e ternura desmedida.
Há pureza no olhar,
há amizade no ar,
nesta terra tão querida.

Tem o seu lado obscuro,
no seu recanto mais escuro,
que conspurca a madrugada.
A droga escondida espreita,
e o povo nem suspeita,
como vive amargurada.

Nas noites quentes de verão,
há motivos e razão,
que nunca sendo demais,
junta grupos de pessoas,
sinceras, puras e boas,
conversando nos poiais.

As ruas são apinhadas,
as conversas variadas,
tal como o trigo na eira.
É uma terra de cultura,
a honestidade perdura,
nesta Baixa da Banheira.

Se eu chegar a ser velhinho,
quero sentir o carinho
e ter o doce prazer,
de um dia sem esperar,
a morte me visitar
e aqui poder morrer.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Joaquim Vicente Vedor Paulino

Sou o que quiseres

Sou um barco, uma gaivota,
Sou mar e algas marinhas.
Sou ninfa, sereia e brisa
e da areia as pedrinhas.

Sou o sal das tuas lágrimas,
o riso no teu olhar,
sou o sol e sou as vagas,
trovoada e temporal.

Sou a noite, sou o dia,
sou também a madrugada.
Sou a tristeza, a alegria,
duma alma amargurada.

Sou o coração destroçado,
que deambula perdido,
o sangue amargo e viscoso,
dum velho corpo esquecido.

Sou a pedra no sapato,
sou a surpresa embrulhada,
sou o grito desesperado,
que atravessa a madrugada.

Sou o pássaro ferido,
sou um corpo a flutuar;
sou uma ilha pequena
perdida no meio do mar.

Sou a arte onde tu tocas
e te toca o coração.
Sou a luz que ilumina,
toda a tua escuridão.

Serei tudo o que tu quiseres,
tudo o que te der prazer,
a força que vem de ti,
é que me ajuda a viver.