O Poeta é universal
O poeta não tem barreiras
por isso é universal
a cor das suas bandeiras
é portanto natural
Que ninguém diga ao poeta
o que ele deve escrever
faz figura de pateta
talvez mesmo sem saber
O poeta não pode ser
carcereiro de si mesmo
por isso deve escrever
versos soltos e a esmo
E depois soltar ao vento
os poemas que escreveu
com a coragem e com talento
que a natureza lhe deu
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Lenine Sobreiro
A Palavra Camarada
A palavra camarada
tem tanta profundidade
que eu não entendo por nada
que haja gente que não goste
da palavra camarada
Camarada é ter na mão
um pão para repartir
é ter força e ter razão
para nunca desistir
Camarada é defender
os pobres, os deserdados
é lutar sem se render
em prol dos explorados
Camarada é estar aqui
ao vivo sem vacilar
e depois sair daqui
com força para lutar
Camarada é acreditar
que a vida só tem sentido
quando a miséria acabar
e o pão for bem repartido
A palavra camarada
tem tanta profundidade
que eu não entendo por nada
que haja gente que não goste
da palavra camarada
Camarada é ter na mão
um pão para repartir
é ter força e ter razão
para nunca desistir
Camarada é defender
os pobres, os deserdados
é lutar sem se render
em prol dos explorados
Camarada é estar aqui
ao vivo sem vacilar
e depois sair daqui
com força para lutar
Camarada é acreditar
que a vida só tem sentido
quando a miséria acabar
e o pão for bem repartido
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Lenine Sobreiro
Nasce assim a poesia
Verso branco ou rimado
o que é preciso é escrever
aquilo que a gente sente
e que gosta de dizer
Eu sinto tanto prazer
e sinto tanta alegria
quando rimo sem querer
quando escrevo poesia
O verso branco aparece
duma forma tão normal
tal como desaparece
o que é muito natural
Nasce assim a poesia
livre como o próprio vento
formando uma sinfonia
que canta a todo o momento.
Verso branco ou rimado
o que é preciso é escrever
aquilo que a gente sente
e que gosta de dizer
Eu sinto tanto prazer
e sinto tanta alegria
quando rimo sem querer
quando escrevo poesia
O verso branco aparece
duma forma tão normal
tal como desaparece
o que é muito natural
Nasce assim a poesia
livre como o próprio vento
formando uma sinfonia
que canta a todo o momento.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Lucília do Carmo: uma diva, nem sempre recordada como merece!
Recordo aqui a D. Lulícia do Carmo, uma das mais belas vozes do fado, de todos os tempos. É sublime a forma como pronúncia cada palavra!
Lenine Sobreiro
Ser cego
Os cegos não são aqueles
que por sua infelicidade
não vêem a claridade
nem tampouco a sombra deles
Cegos são os que não querem
encarar a realidade
e usam a falsidade
para, enfim, se esconderem
Cegos são os que não sentem
a injustiça social
em vez do bem, fazem mal
não falam verdade, mentem
Depois do que fica dito
não há mais nada a dizer
embora seja esquisito
cegos: "são os que não querem ver"
Os cegos não são aqueles
que por sua infelicidade
não vêem a claridade
nem tampouco a sombra deles
Cegos são os que não querem
encarar a realidade
e usam a falsidade
para, enfim, se esconderem
Cegos são os que não sentem
a injustiça social
em vez do bem, fazem mal
não falam verdade, mentem
Depois do que fica dito
não há mais nada a dizer
embora seja esquisito
cegos: "são os que não querem ver"
Lenine Sobreiro nasceu em 1934 na freguesia de Palhais, concelho do Barreiro. Cedo, aderiu à luta antifascista, tendo mesmo sido preso político. Para além de poeta, é também declamador, tendo percorrido o país, um pouco por todo o lado, divulgando a poesia.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Lenine Sobreiro
Deixem-me ser criança
Não me matem à nascença
deixem-me rir e cantar
deixem-me ser criança
deixem-me afinal, brincar
Deixem-me ver o sol, o mar
sentir frio, sentir calor
deixem-me dormir, sonhar
viver a vida com amor
Deixem-me olhar a lua
as estrelas a cintilar
deixem-me andar na rua
deixem-me aprender a amar
Deixem-me colher rosas
flores lindas do jardim
tão bonitas, tão viçosas
deixem-me crescer, enfim...
Não me matem à nascença
deixem-me rir e cantar
deixem-me ser criança
deixem-me afinal, brincar
Deixem-me ver o sol, o mar
sentir frio, sentir calor
deixem-me dormir, sonhar
viver a vida com amor
Deixem-me olhar a lua
as estrelas a cintilar
deixem-me andar na rua
deixem-me aprender a amar
Deixem-me colher rosas
flores lindas do jardim
tão bonitas, tão viçosas
deixem-me crescer, enfim...
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
João Vaz Penetra
A Caça em Cabeção
Havia boas caçadas
Coelhos, lebres, perdizes
Rolas, pombos, codornizes
Mas foi em eras passadas.
"Espingardas" com provas dadas
Famosos atiradores
Caça à farta sem favores
Os coelhos quase "de graça"
Nesses tempos em que a caça
Era mais que os caçadores.
Havia boas caçadas
Coelhos, lebres, perdizes
Rolas, pombos, codornizes
Mas foi em eras passadas.
"Espingardas" com provas dadas
Famosos atiradores
Caça à farta sem favores
Os coelhos quase "de graça"
Nesses tempos em que a caça
Era mais que os caçadores.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
João Vaz Penetra
Apelidos e Alcunhas (continuação)
Um Martins que foi pedreiro
O que havia d'arranjar
Deu-me a filha p'ra casar
E eu deixei de ser solteiro
Tinha um café no Ribeiro
Fomos amigos correctos
Debaixo dos mesmos tectos
Não se metia em sarilhos
Era o avô dos meus filhos
E o bisavô dos meus netos.
Terra de trabalhadores
Nas diversas profissões
Empregados e patrões
Dos serventes aos doutores
A todos presto louvores
Com o devido respeito
Mesmo sem força nem jeito
Quero abraçá-los a todos
Que tenham saúde a "rodos"
Por tudo o que têm feito.
Senhora da Madre-Deus
Peço-te um grande favor
Pede a Deus Nosso Senhor
Por estes amigos meus
E um Cordeiro que fala em Deus
Merece consideração
O Padre de Cabeção
Qu'encomenda os nossos mortos
Casa uns baptiza outros
Tem uma bela missão.
Peço p'ra ser desculpado
Se algum de vós ofendi
Com aquilo que escrevi
Não foi mal intencionado
Assim fica registado
Desta forma deslavada
P'ra que possa ser lembrada
E eu não tenho receios
Os nomes podem ser feios
Mas é tudo gente honrada.
Já corri a vila inteira
Andei "à cata" de gente
Com algum nome diferente
Lá na minha parenteira
E assim desta maneira
Não sei se fiz bem ou mal
Mas o meu espanto foi tal
Com os nomes que aqui estão
Eu cheguei à conclusão
Que acabei c'o pessoal.
Quero chamar a atenção
De quem estes versos ler
Eu limitei-me a escrever
E não fiz pontuação
Eu deixo à consideração
De todo e qualquer leitor
Poeta ou declamador
Que os diga como quiser
A forma como os disser
Não ofende o seu autor.
Fim!
Um Martins que foi pedreiro
O que havia d'arranjar
Deu-me a filha p'ra casar
E eu deixei de ser solteiro
Tinha um café no Ribeiro
Fomos amigos correctos
Debaixo dos mesmos tectos
Não se metia em sarilhos
Era o avô dos meus filhos
E o bisavô dos meus netos.
Terra de trabalhadores
Nas diversas profissões
Empregados e patrões
Dos serventes aos doutores
A todos presto louvores
Com o devido respeito
Mesmo sem força nem jeito
Quero abraçá-los a todos
Que tenham saúde a "rodos"
Por tudo o que têm feito.
Senhora da Madre-Deus
Peço-te um grande favor
Pede a Deus Nosso Senhor
Por estes amigos meus
E um Cordeiro que fala em Deus
Merece consideração
O Padre de Cabeção
Qu'encomenda os nossos mortos
Casa uns baptiza outros
Tem uma bela missão.
Peço p'ra ser desculpado
Se algum de vós ofendi
Com aquilo que escrevi
Não foi mal intencionado
Assim fica registado
Desta forma deslavada
P'ra que possa ser lembrada
E eu não tenho receios
Os nomes podem ser feios
Mas é tudo gente honrada.
Já corri a vila inteira
Andei "à cata" de gente
Com algum nome diferente
Lá na minha parenteira
E assim desta maneira
Não sei se fiz bem ou mal
Mas o meu espanto foi tal
Com os nomes que aqui estão
Eu cheguei à conclusão
Que acabei c'o pessoal.
Quero chamar a atenção
De quem estes versos ler
Eu limitei-me a escrever
E não fiz pontuação
Eu deixo à consideração
De todo e qualquer leitor
Poeta ou declamador
Que os diga como quiser
A forma como os disser
Não ofende o seu autor.
Fim!
Esta longa composição poética, em décimas, constitui uma crónica dos nomes, apelidos e alcunhas das gentes de Cabeção. Nela perpassa a ternura do autor pelas pessoas suas conterrâneas. Quantas destas alcunhas terão passado a apelido dos descendentes do alcunhado? Quantos destes apelidos terão resultado de uma graçola ocasional? O Alentejo é fértil nesta tradição - raramente numa aldeia escapará alguém a uma ou mais alcunhas. E, se recuarmos no tempo, era facílimo a alcunha passar a apelido "oficial", isto é, no Registo Civil, na Cédula Pessoal, no Bilhete de Identidade!
E que dizer das alcunhas "ofensivas", aquelas só usadas "nas costas" da pessoa alcunhada... Cito aqui um caso que conheci, de uma mulher que foi "baptizada" de Perna Cagada, a quem eu quando criança tratei dessa forma, acrescentando prima - Prima Perna Cagada! Claro que a resposta foi uma valente bofetada. Já que referi a minha experiência de infância, faço ainda uma confidência: No meu agregado familiar, na grande cidade, portanto, a dada altura, como não conhecíamos os nomes de alguns vizinhos, para, por algum motivo as nomearmos (só entre nós), resolvemos usar alcunhas: a Plástica, uma senhora que constantemente sacudia uma tolha de plástico; a Janeleira, senhora que passava horas seguidas à janela; o Neco, porque era super-parecido com um personagem de telenovela muito popular na altura.
A propósito deste poema, pela sua importância, faço referência a uma obra muito interessante, o Tratado das Alcunhas Alentejanas, de Francisco Martins Ramos e Carlos Alberto da Silva, que constitui um inestimável contributo para o conhecimento deste tema. E também a História da Vida Privada em Portugal, obra em 4 volumes dirigida pelo Professor José Matoso, editada pelo Círculo de Leitores, que no primeiro volume trata com rigor a questão da atribuição do nome, apelidos e alcunhas, desde tempos remotos aos nossos dias, e como foi a evolução nas famílias, nas regiões, nos vários grupos sociais.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
João Vaz Penetra
Alcunhas e Apelidos (continuação)
Os Abrantes aqui estão
Um deles é cavaleiro
E o ti J'aquim Cabreiro
Vivia no Maranhão
Do velho João Rabadão
Muita história se dizia
E um certo doutor havia
Que belos conselhos dava
Quando alguém o consultava
Lá na horta d'Aravia.
António dos Porcos era
Negociante de gado
Muitos porcos do montado
Aquela "alma" vendera
Fosse inverno ou primavera
Sempre na burra castiça
Aqui lhe presto justiça
A vida também tem trocos
Morreu o António dos porcos
Mas temos cá o Linguiça.
Com saudades vou sorrindo
Ao recordar tanta gente
Figuras d'antigamente
E outras que vão surgindo
Tivemos o Zé Relindo
Qu'era um grande mariola
Temos cá o João Tàjola
E o nosso amigo Bebéla
"Levou poucas" do Varela
Nos nossos tempos de escola.
Galizas, Bilros, Palhais
Papa-Ratos, Peia-Cucos
Não é terra de malucos
Nem são homens anormais
Aos outros eram iguais
Desde que eram Rapazinhos
Pirralhas e Tatarinhos
Carumbas, Repas e Piscos
Lamarosas e Roviscos
E o Chico dos Pàzinhos.
Tivemos o Bernardino
Cabeleireiro de animais
O Arromba e o Zé Pais
O Manel Alexandrino
O Velez e o Cat'rino
Nomes que hão-de ser lembrados
Mas um dos mais afamados
Luís Borreicho Godinho
Não podia ver o vinho
Bebia d'olhos fechados.
Havia um homem de bem
Por todos considerado
Há muito já foi chamado
O Luís Guarda que Deus tem
E o nosso Tita também
Deixou viúva a Jacinta
Por mais tristeza que eu sinta
Ainda sinto emoção
Pela morte do Bailão
Filho da Jaquina Pinta.
(continua proximamente...)
Os Abrantes aqui estão
Um deles é cavaleiro
E o ti J'aquim Cabreiro
Vivia no Maranhão
Do velho João Rabadão
Muita história se dizia
E um certo doutor havia
Que belos conselhos dava
Quando alguém o consultava
Lá na horta d'Aravia.
António dos Porcos era
Negociante de gado
Muitos porcos do montado
Aquela "alma" vendera
Fosse inverno ou primavera
Sempre na burra castiça
Aqui lhe presto justiça
A vida também tem trocos
Morreu o António dos porcos
Mas temos cá o Linguiça.
Com saudades vou sorrindo
Ao recordar tanta gente
Figuras d'antigamente
E outras que vão surgindo
Tivemos o Zé Relindo
Qu'era um grande mariola
Temos cá o João Tàjola
E o nosso amigo Bebéla
"Levou poucas" do Varela
Nos nossos tempos de escola.
Galizas, Bilros, Palhais
Papa-Ratos, Peia-Cucos
Não é terra de malucos
Nem são homens anormais
Aos outros eram iguais
Desde que eram Rapazinhos
Pirralhas e Tatarinhos
Carumbas, Repas e Piscos
Lamarosas e Roviscos
E o Chico dos Pàzinhos.
Tivemos o Bernardino
Cabeleireiro de animais
O Arromba e o Zé Pais
O Manel Alexandrino
O Velez e o Cat'rino
Nomes que hão-de ser lembrados
Mas um dos mais afamados
Luís Borreicho Godinho
Não podia ver o vinho
Bebia d'olhos fechados.
Havia um homem de bem
Por todos considerado
Há muito já foi chamado
O Luís Guarda que Deus tem
E o nosso Tita também
Deixou viúva a Jacinta
Por mais tristeza que eu sinta
Ainda sinto emoção
Pela morte do Bailão
Filho da Jaquina Pinta.
(continua proximamente...)
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