sexta-feira, 14 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

sábado, 1 de maio de 2010

Francisca Maria Estreitinho "Chica Estreitinho"

O que querem os sindicalistas
Ainda ninguém te explicou
Vou-te eu agora explicar
Porque sindicalista sou

Fazer associações
Em toda a parte do mundo
Um governo para governar tudo
Nas devidas condições
Se acabarem as excepções
Se acabarem os egoístas
Se acabarem os burguistas
E se acabar o dinheiro
E é cavalheiro
O que querem os sindicalistas

A importância do doutor
Muito valor tem que ter
Mas digam-lhe que venha fazer
O que faz um trabalhador
Queriam que tivessemos igual valor
Cada qual para o que estudou
E um criado como eu sou
Quer então fazer diferença
Mas dos homens de grande imprensa
Ainda ninguém te explicou

O que serve o capital
Amontoado em baús
E uns descalços e outros nus
Implorando em Portugal
Queremos evitar esse mal
Queremos a agricultura alargar
Muitos braços a empregar
Para que tudo produzisse
Mas se ainda ninguém te disse
Vou-te eu agora explicar

O direito de reunião
Para a gente se reunir
Queremos logo a seguir
A lei da associação
O direito de expressão
Que no congresso se votou
Para sempre se aprovou
Para sempre consagrado
Viva todo o proletariado
Que eu sindicalista sou

A Chica Estreitinho, tendo nascido em Santa Susana/ Alcácer do Sal, em 1927, foi residir para o Escoural aos nove anos e aí constituiu família e sempre viveu. Apenas sabia ler e escrever.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Manuel António Pereira (Manel Papeleiro)

Luta do povo alentejano
Noite e dia, ano a ano
Sua arma é a razão
No Alentejo é que é
Aonde se morre de pé
Pela paz, trabalho e pão.

A província alentejana
Desde o Tejo ao Guadiana
Toda ela é berço humano
E a riqueza produzida
Para que seja dividida
Luta o povo alentejano.

A luta dos camponeses
É o pão dos portugueses
Produzir é seu plano
Aonde se diz presente
Nesta luta permanente
Dia a dia, ano a ano.

O nome dos que tombaram
Está naqueles que ficaram
Bem vivos no coração
Um povo que luta unido
Nunca pode ser vencido
Sua arma é a razão.

O ar que aqui se respira
Desde Nisa a Odemira
E de Elvas a Santo André
O ponto chave é camarada
Uma luta organizada
No Alentejo é que é.

Marchando a passo seguro
Com os olhos no futuro
Onde ninguém perde a fé
Dizem os novos e velhos
Para viver de joelhos
É melhor morrer de pé.

Vítimas da mesma dor
Escoural e Montemor
Juntam-se aos de Baleizão
Foi de pé que ali morreram
Os que sempre defenderam
O trabalho, paz e pão.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Manuel António Pereira (Manel Papeleiro)

Encheram o Alentejo
De Guardas Republicanos
Para que não se produza
Nesta terra alentejana.

Depois das terras desbravadas
Em fase de produção
À força de repressão
São de novo abandonadas
As searas não são ceifadas
Que destruir é seu desejo
Em busca dum privilégio
Vão os campos devastá-los
Homens, jipes e cavalos
Encheram o Alentejo.,

As patrulhas a rondar
Em volta dos camponeses
São métodos portugueses
Do tempo do Salazar
Reprimir para mostrar
Sua força soberana
Uma política desumana
Emprega-se em quem trabalha
Com cães, armas e metralhas
E Guarda Republicana.

Devolve-se a terra ao mato
A fome aos trabalhadores
Dá-se o gado aos lavradores
Para vender ao desbarato
Tudo isto é um retrato
Daquilo que aqui se usa
O povo tanto recusa
Quer as terras semear
Mas há alguém a evitar
Para que não se produza.

Falando em democracia
Rouba-se a tantos o pão
Dá-se o dinheiro aos que estão
Na mais alta burguesia
O povo que não sabia
Se quiser jamais se engana
Sete dias por semana
Andam as forças da ordem
A provocar a desordem
Nesta terra alentejana.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Manuel António Pereira (Manel Papeleiro)

Grândola Vila Morena
Bandeira da revolução
É gente firme e serena
Garante o teu brasão.

Foi no teu seio que nasceu
O sonho da liberdade
Mais tarde em realidade
O sonho se converteu
Quando um poeta escreveu
Que o povo é quem mais ordena
És uma terra pequena
Mas grande em calor humano
És o hino alentejano
Grândola Vila Morena.

Sei que alguém quer humilhar
Brumas da tua memória
Mas dos fracos não reza a história
Não vale a pena tentar
Sempre hás-de ter para lhe dar
Uma palavra, uma lição
És terra de paz e de pão
Amor e fraternidade
Berço da humanidade
Bandeira da revolução.

O teu povo sempre sofreu
Ataques, perseguições
Na hora das decisões
Sempre lutou e venceu
Povo que não se rendeu
Do lutar nunca tem pena
Com a certeza plena
Que sempre há-de vencer na vida
Para jamais ser vencida
A gente firme e serena.

O teu baluarte de defesa
É pão, amor e trabalho
O carinho, o agasalho
Os pilares da fortaleza
Na revolução portuguesa
O teu nome foi o guião
Quer o povo e com razão
Ver bem alto essa bandeira
Com o javali e a azinheira
Garante do teu brasão.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Manuel António Pereira (Manel Papeleiro)

Quando oiço cantar o fado
Faz-me lembrar a Caveira
Onde ouvi o meu pai cantar
Sentado junto à lareira

Quando vejo uma reunião
De amigos e de poetas
Vem o luto como setas
Invadir-me o coração
Recorda-me o meu torrão
O lar onde fui criado
O berço em que fui dentado
Era cheio de poesia
Sinto presa a alegria
Quando oiço cantar o fado.

Onde eu dei os primeiros passos
Recorda-me um velho monte
Minha mãe quando ia à fonte
Levava-me nos seus braços
Punha-me fitas e laços
Compunha-me à sua maneira
Essa mãe aninhadeira
Tanto zelou por seu ninho
Em vendo amor e carinho
Faz-me lembrar a Caveira.

Como um xaile de cadilhos
Era meu pai rodeado
Uns no colo, outros ao lado
Assim elucidou os filhos
Quem seguiu os seus bons trilhos
No mundo não pode errar
Se eu hoje canto é pr'a honrar
O meu pai que faleceu
Mas muito melhor do que eu
Ouvi o meu pai cantar.

Esses tempos amorosos
Que eu gozei na tenra idade
Revelam hoje em saudade
Ao lembrar meus pais extremosos
Momentos deliciosos
Calor da sua braseira
Meu pai, a sua canseira
Ao voltar do seu labor
Era ver os filhos com amor
Sentados junto à lareira.

Estas décimas, estão inseridas no livro "ao POVO do meu PAÍS", edição da Câmara Municipal de Grândola, de 1996.
Manel Papeleiro, natural de Grândola, nasceu em 1918 no Monte da Caveira. Começou a trabalhar aos sete anos de idade, a guardar gado. Foi, depois, trabalhador do campo, mineiro, operário cerâmico, vendedor de peixe, pedreiro e fogueiro. É caso para dizer-se que foi o homem dos sete ofícios! É autor de inúmeros poemas, alguns dos quais estão reunidos no livro acima referido.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

António Maria Eusébio, o Calafate



Um livre pensador para o sino

Oh! Sino da freguesia
Que estás sempre a badalar
Estás-me sempre atormentando
Nunca cessas de tocar.

És meu vizinho que aí estás
Exercendo o teu emprego
Perturbando o meu sossego
E o incómodo que tu me dás.
Não sei quem seja capaz
De acabar tal agonia.
Tinhas melhor serventia
Para andares mais corriqueiro
Se fosses feito em dinheiro
Oh! Sino da freguesia.

às vezes de madrugada
Tocas de teu alto trono,
Interrompendo meu sono
Com inferneira escusada.
Sino não serves para nada
Serves para me apoquentar.
Para me fazer levantar,
O teu toque era escusado
És um intrujão sagrado
Que estás sempre a badalar.

Se dobras sinais de rico,
Apoquenta-me o teu dobre
Se tocas sinais de pobre,
Mais apoquentado fico.
Os teus sons me mortificam
Sejam alegres ou chorando.
Cada vez que estás tocando
Na cabeça me dás choques
Com teus beatos toques


Para haver qualquer festinha,
Ou mesmo ofícios divinos
Escusava de haver sino
Bastava uma campainha.
Tocas pela manhãzinha
Tocas para me inportunar.
Tocas depois do jantar
Tocas de tarde e à noite
Para meu castigo e açoute
Nunca cessas de tocar.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

António Maria Eusébio, o Calafate



Já fui operário artista

Já fui operário artista
Agora, já pouco valho;
Comprem-me algum papelinho,
Em paga do meu trabalho

Glosa

Já gozei a mocidade
Esse bem tão precioso,
Fui homem laborioso
E trabalhei de vontade.
Já servi na sociedade,
Já fui homem moralista,
O meu vulto já fez vista
No seio das classes pobres,
~Já fui nobre ao pé dos nobres,
Já fui operário artista.

Já tive as mãos calejadas
Do muito que trabalhei,
Meus braços atormentei
Com ferramentas pesadas.
Tive horas amarguradas,
Joguei, rasguei o baralho,
Hoje apanho algum retalho
Que a ambição deixa cair,
P'ra pouco posso servir,
Ahora já pouco valho.

Até ando ameaçado
De fome ainda passar,
Por a um homem estimar,
A quem estou obrigado.
Sou pobre velho e cansado,
Estou no fim do meu caminho;
Poorque sou do Zé povinho,
Não devo ser esquecido,
Seja qual for o partido,
Comprem-me algum papelinho.

Nunca fiz ruins papeis
Nem andei pondo cartazes
Nem atirei aos rapazes
Com moedas de dez réis.
Falem, pois, os infieis,
Chamem-me velho, espantalho;
Como, agora já não valho
De tabaco uma pitada,
Levo alguma bofetada
Em paga do meu trabalho.