domingo, 17 de julho de 2011

"Abandono"

As palavras de David Mourão Ferreira, a música de Alain Oulman, a voz de Amália. Contam-nos, cantam-nos tempos tenebrosos que não queremos de volta.

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.


sábado, 2 de julho de 2011

Recado a Lisboa

Lisboa, querida mãezinha
Com o teu xaile traçado
Recebe esta carta minha
Que te leva o meu recado

Que Deus te ajude Lisboa
A cumprir esta mensagem
De um português que está longe
E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de São João
Lá pelas ruas de Alfama
Acendo o meu coração
No fogo da tua chama

Depois levo pela cidade
Num vaso de manjericos
Para matar a saudade
Desta saudade em que fico

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar


sexta-feira, 1 de julho de 2011

domingo, 26 de junho de 2011

Manuel João Mansos

A Verdade

Eu sei que a verdade
é amarga e arde
nos corações perversos.
Mas que é sinceridade
cantada em versos
na boca dos poetas,
esses loucos possessos
da fonte da poesia,
profetas
do futuro que algum dia
virá à humanidade.
Eu sei.
Sei que a verdade
é amarga e arde.
Por isso canto e cantarei
apenas a verdade.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Manuel João Mansos

A clara razão

Tens de soltar um grito,
um grito de alegria,
nesta província deserta
de terras abandonadas:
-Acabem com as coutadas!

Pois se esta terra germina
azeite, vinho e trigo!
Deixarás de ser mendigo
para então trabalhares
e nunca mais emigrares.

Farás assim tua vontade.
Que eu vivo na ansiedade
de te ouvir alto gritar:
-É aqui que eu quero ficar,
não aceito a emigração,
esse desterro social!

Calares tão clara razão
não é o teu natural
nem de homem é calar.
Grita, pois, teu grito novo:
-A terra Há-de germinar
quando for terra do povo!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Manuel João Mansos

Depois do dever cumprido

Depois do dever cumprido,
Ó homem, não te apoquentes,
deixa vir o que vier.
Se és por alguém denegrido,
já que nasceste poeta,
nessa luta te aguentes,
-não é poeta quem quer:
só aquele que desperta
para a aurora da verdade
por tantos sempre encoberta
com dizeres de falsidade,
atrás de servil comédia,
onde muitos dos actores
a representam sem rédea
mas com freio de várias cores;
portanto, se és denegrido
aguenta as tuas dores.
Estás a teus irmãos unido
segue avante o teu fadário
e não te julgues solitário
depois do dever cumprido.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Manuel João Mansos

Um só ideal

Não quero credos a meias
mas sim o credo total:
corra só em nossas veias
sangue de um só ideal.

P'ra todo aquele que sente
na alma fraternidade,
ter um credo é simplesmente
vivê-lo em sinceridade.

E tu, que vives com peias,
qual é teu credo, afinal?
Não, não há credos a meias,
mas sim um credo total.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Manuel João Mansos

Nunca te dês por vencido

Por sofrer muito na vida,
nunca te dês por vencido:
luta de cabeça erguida
sem um ai, nem um gemido.

"Nem só de pão vive o homem",
ó meus queridos companheiros,
a não ser os tais, que comem
o pão dos trinta dinheiros.

Estes, sim, são desgraçados,
não o és tu, na tua dor;
comem o pão dos deserdados,
tu, pão de agruras em flor.

Pão de amargura comido
é mel n'alma deprimida,
Nunca te dês por vencido
por sofrer muito na vida.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Manuel João Mansos

O Homem que bem se regre

Quero cantar, ser alegre,
Já não me importa a tristeza.
O homem que bem se regre
faz do seu riso firmeza!
Quando o coração está triste
no rosto riso profundo,
que o riso é de quem resiste
aos mandões cá deste mundo.
E aquele que sabe honrar
a ideia que o norteia
ouve no peito cantar
sorrisos em maré-cheia;
nunca mais na dor se enleia
a pontos de andar perdido,
mostra leal inteireza:
vence-a, jamais é vencido,
pois faz do riso firmeza
o homem que bem se regre.
Já não me importa a tristeza,
quero cantar, ser alegre!
 Manuel João Mansos, é autor de Alentejo Maior, velhinha edição de autor de 1972, livro de poemas que tem o Alentejo e o seu Povo por tema. Nasceu em 1916 na Vidigueira.
Segundo Manuel da Fonseca, "Rosto virado ao quotidiano, M.J.M. acusa, sem tibiezas , a injustiça e canta, herança da mãe, a ternura pelo seu semelhante."

domingo, 12 de junho de 2011

Manuel João Mansos

O meu livro

Meu livro, leitor amigo,
é este cantar poemas
que são o porto de abrigo
de quem não suporta algemas.

Liberdade é dom de Deus
dado a todo o ser vivente:
sejam cristãos ou ateus
todos são livres, são gente.

Mas a contrários intuitos
há quem a todos obrigue;
são poucos, dominam muitos:
é só p'ra eles ser livres.

Quando o mal lança o assalto,
eu o enfrento lutando:
ao meu destino não falto,
amigos, cá vou cantando.

Quem pode ficar calado
se não vê na vida o norte?
Consentir olhos vendados
é estar morto antes da morte.

Fartos caminhos de pão
têm guardas à entrada;
tão injusta negação
não foi por Deus ordenada.

P'ra que se cumpra o que é justo
alta vontade comanda:
que se lute a todo o custo
por aquilo que Deus manda.

Quantos já foram vencidos
deixaram bons pergaminhos:
é da lei que os oprimidos
tentem romper seus caminhos.

Se cada qual se sentisse
herdeiro de exemplos maiores,
as searas não teriam
escalrachos de ditadores.

E quando o trigo nascer
do ruim escalracho salvo,
quem nega que há-de crescer
para todos o pão alvo?

Amigos, este é o meu
natural tom de cantar:
liberdade que Deus me deu
ninguém ma pode roubar.