segunda-feira, 14 de junho de 2010

Horácio da Silva Parreira

Já dormi na tua cama
Já o teu rosto beijei
Já ganhei os teus carinhos
E outras coisas que eu cá sei

Foi chorando que nasci
Tinha um ano e gatinhava
Tinha dois eu já andava
E tinha três adoeci
Não sei como eu não morri
Se ainda era de mama
Aos quatro já tinha dama
E aos cinco estou bem lembrado
Mesmo sem ter abanado
Já dormi na tua cama

Aos seis anos ia à missa
Pela mão da minha mãe
Aos sete lembra-me bem
Que tu eras minha derriça
Metias muita cobiça
Quando os oito completei
Pois aos nove eu ateimei
Que te havia de namorar
Aos dez me posso gabar
Já o teu rosto beijei

Quando os onze anos fiz
Já sabia o que era amores
E alguns sérios calores
Que me faziam feliz
Pois aos treze eu então quis
Que nós fossemos amiguinhos
Aos catorze alguns beijinhos
E foi isso à boa mente
Pois aos quinze verdadeiramente
Já logrei os teus carinhos

Quando dezasseis anos tinha
Te disse mais uma vez
E aos dezassete talvez
Que viesses a ser minha
Aos dezoito cá me entretinha
Com outros amores que arranjei
Aos dezanove me voltei
A dar-te toda a atenção
E aos vinte apertei-te a mão
E outras coisas que eu cá sei

O Horácio Parreira nasceu, no Escoural e aqui sempre residiu, em 1915. Trabalhador rural de profissão, não sabia ler nem escrever.

domingo, 13 de junho de 2010

Esmeraldina Pinto

Quadras dedicadas ao crime de Vale de Nobre

A província alentejana
Vive em grande conflito
A Guarda Republicana
Causou um grande delito

É um jovem camarada
E outro de mais idade
que mataram à rajada
No lugar de certa herdade

Eram homens muito honrados
Que ganhavam o seu pão
Que foram martirizados
E mataram à traição

Mataram os desgraçados
Sem motivo nem razão
Jamais serão perdoados
Pelo povo da nação

Foi coisa premeditada
É o que toda a gente diz
A cena mais revoltada
Que se deu neste país

Viam-se braços no ar
E gritos de aflição
Via-se o povo a chorar
Que cortava o coração

Quando os amigos correram
Para salvar seus camaradas
Viram logo que morreram
No meio de tantas rajadas

Gritaram desesperados
Sem saber o que fazer
Pois foram ameaçados
Que também iam morrer

Exigimos o castigo
A esses grandes malvados
Mataram nossos amigos
No trabalho fatigados

O latifundiário sorridente
Viu-se na televisão
Parecendo estar contente
Ao ver a nossa aflição

Onde estão os cravos de Abril
Onde está a liberdade
Assassinos há muitos mil
Sem responsabilidade

Mas desta vez são punidos
Isso posso afiançar
O povo está bem unido
Os braços não vai cruzar

Assim a luta continua
Doa lá a quem doer
Minha vontade é a tua
Nós havemos de vencer

sábado, 12 de junho de 2010


A velhinha estação da CP, de Casa Branca, onde já não são vendidos bilhetes.

Esmeraldina Pinto

Penas que fazem pena

Com pena pus-me a escrever
As penas do coração
Com pena de não te ver
Caiu-me a pena da mão

Agarro a pena com fé
Para voltar a escrever
Assim foi e assim é
O que é pena faz sofrer

É pena estares ausente
É pena a pena sentir
É pena eu ter presente
A hora do teu partir

É pena não regressares
Como é o meu desejo
É pena se não voltares
Pena é se não te vejo

É pena não te esquecer
Como te esqueces de mim
É pena a pena sofrer
Pena a pena não ter fim

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Esmeraldina Pinto

Viver sem ti meu amor

Viver sem ti meu amor
É Primavera sem flor
É viver desesperada
É a Lua a escurecer
O Sol sem aparecer
A noite sem madrugada

Viver sem ti é esperar
É tudo por realizar
Um coração a sofrer
Viver sem ti não é vida
E uma esperança perdida
Sem ti não posso viver

Viver sem ti não é nada
É uma luz apagada
É viver desiludida
É remar contra a maré
É perder na vida a fé
Viver sem ti não é vida

Viver sem ti é portanto
Ter o coração em pranto
Ter vida e não viver
Viver sem ti é lamento
É um constante tormento
Viver sem ti é morrer

Esmeraldina Pinto é uma poeta Escouralense, nascida em 1925, é doméstica e reside em Casa Branca.

quinta-feira, 10 de junho de 2010


Nesta casa nasci, em 05 de Outubro de 1945, sendo a minha mãe assistida por uma comadre que por isso e conforme a tradição ficou minha madrinha de umbigo, e nesta mesma casa vivi os meus primeiros dois anos. Hoje já beneficiada com obras de recuperação, tinha na época um telhado de duas águas e telhas árabes.
Já depois de mudar para outra casa, a minha mãe costumava utilizar o forno (cuja porta se vê ao fundo) para cozer os bolos da Páscoa, ocasião que era uma festa, para mim e minhas irmãs mais novas, sobretudo quando chegava a ocasião de raspar os alguidares...

Chica Estreitinho

Rosa que estás na roseira
Deixa-te estar fechadinha
Enquanto vou à minha terra
Que em de lá vindo serás minha

És a rainha das flores
Que aparecem no jardim
Talvez nascesses para mim
E teus olhos encantadores
Entre todos os amores
Tu és a minha verdadeira
Antes que teu pai não queira
E a tua mãe diga não
Deixa-te estar em botão
Rosa que estás na roseira

Delicado amor perfeito
Onde vieste florir
Onde havia de existir
Uma rosa, no meu peito
Eu sempre te amei com jeito
Nesse deserto sozinha
Pega numa flor das minhas
Para o teu ramo enfeitares
Para a cor não lhe mudares
Deixa-te estar fechadinha

Querida do meu coração
Decora-me esta cartinha
Enquanto tu não fores minha
Não tenho consolação
Dá-me a tua direita mão
Amor com amor se encerra
Trago o meu amor em guerra
De ti não me desengano
Só peço de espera um ano
Enquanto vou à minha terra

Nem em vasos nem jardins
Nem no palácio do rei
Nunca vi nem encontrei
Tão delicado jasmim
Junto à flor do alecrim
Rosa tão encarnadinha
Com a folha tão miudinha
Eu faço gosto em te amar
Não te deixes desfolhar
Que em e lá vindo serás minha

sexta-feira, 14 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

sábado, 1 de maio de 2010

Francisca Maria Estreitinho "Chica Estreitinho"

O que querem os sindicalistas
Ainda ninguém te explicou
Vou-te eu agora explicar
Porque sindicalista sou

Fazer associações
Em toda a parte do mundo
Um governo para governar tudo
Nas devidas condições
Se acabarem as excepções
Se acabarem os egoístas
Se acabarem os burguistas
E se acabar o dinheiro
E é cavalheiro
O que querem os sindicalistas

A importância do doutor
Muito valor tem que ter
Mas digam-lhe que venha fazer
O que faz um trabalhador
Queriam que tivessemos igual valor
Cada qual para o que estudou
E um criado como eu sou
Quer então fazer diferença
Mas dos homens de grande imprensa
Ainda ninguém te explicou

O que serve o capital
Amontoado em baús
E uns descalços e outros nus
Implorando em Portugal
Queremos evitar esse mal
Queremos a agricultura alargar
Muitos braços a empregar
Para que tudo produzisse
Mas se ainda ninguém te disse
Vou-te eu agora explicar

O direito de reunião
Para a gente se reunir
Queremos logo a seguir
A lei da associação
O direito de expressão
Que no congresso se votou
Para sempre se aprovou
Para sempre consagrado
Viva todo o proletariado
Que eu sindicalista sou

A Chica Estreitinho, tendo nascido em Santa Susana/ Alcácer do Sal, em 1927, foi residir para o Escoural aos nove anos e aí constituiu família e sempre viveu. Apenas sabia ler e escrever.