sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Manuel de Jesus Silveira

Eu via na minha frente
a conta mal dividida
uns trabalharem demais
outros gozarem a vida

Se o Zé Povinho pequeno
tivesse conhecimento
não havia tanto avarento
cá dentro do nosso reino
dividiam o terreno
chegava para toda a gente
porque a terra permanente
cultivada tudo deu
estar a roubar do que é meu
eu via na minha frente

Quem trabalhava muito comia mal
quem trabalhava pouco comia bem
têm contos mais de cem
e o pobre sem ter real
eram senhores do capital
de boa perna estendida
fazendo a nós a partida
para o banco nacional
o que eu via em Portugal
era a conta mal dividida

O grande cultivador
trabalhava noite e dia
era quem lhe dava a valia
eles roubavam-lhe o valor
trabalhava ao frio e ao calor
suspirando e dando ais
os filhos ao pé dos pais
choravam que não tinham pão
era por essa razão
que uns trabalhavam demais

Eu não os via trabalhar
só lhes via prata e ouro
onde tinham esse tesouro
que tanto dinheiro iam buscar
eu só os via passear
no largo e na avenida
não lhes conhecia outra vida
que era viajarem de carro e trem
só os via comer bem
e gozarem boa vida

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Manuel de Jesus Silveira

Diz-me artista se és poeta
se sabes avaliar
dimensões do sol e terra
e do planeta lunar

Se és autor repara bem
se a instrução for tua
diz-me a dimensão da lua
e o tamanho que a terra tem
a luz de onde lhe vem
diz-me se queres ser profeta
procura uma linha recta
debaixo desse farol
e a distância da terra ao sol
diz-me artista se és poeta

Diz-me o veio de rotação
grande ciência se encerra
quantos irmãos tem a terra
e diz-me quais eles são
faz esta observação
para onde os vês girar
mesmo os balanços do mar
quando a maré continua
e a distância da terra à lua
se sabes avaliar

Diz que tempo levará
a luz do sol a chegar
para a terra iluminar
e os habitantes de cá
a grande luz que lhe dá
mesmo do cimo da serra
quem muito estuda pouco erra
eu queria ouvir-te dizer
se tu sabes resolver
dimensão do sol e terra

Toda a luz que a lua tem
diz-me quem lha fornece
a quem a lua a oferece
e essa luz de onde vem
que tempo leva porém
a luz da lua a chegar
precisas de muito estudar
para saber responder
quem a luz vai fornecer
ao planeta lunar

Manuel de Jesus Silveira nasceu em 1930 em Val de Vargo, distrito de Beja. Sabe ler e escrever. Foi trabalhador rural - começou a trabalhar com 10 anos, barbeiro, pedreiro. Foi emigrante em França. Filho de poeta popular e cantador ao despique, com ele aprendeu, e foi inspirado.

sábado, 2 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Manuel de Jesus Silveira

São os escravos da França
os trabalhadores portugueses
o que lá vai uma vez
quer ir duas ou três vezes

Ó dinheiro tu és culpado
de tanta separação
porque queres ver então
o emigrante arrastado
e fazes-lhe isto por vingança
até perdeu a esperança
de mulher e filhos ver
eu afirmo podem crer
que são os escravos da França

É comparação igual
que este meu sentido fez
na França um português
é como um cigano em Portugal
por não nos tratarem mal
fazem da gente maltezes
emigrantes camponeses
nada temos de abundância
tal é a nossa ganância
trabalhadores portugueses

Partes de casa contente
julgando que vais gozar
tu só vais é trabalhar
com saudades na frente
se fores inteligente
vê o contrato que lês
para veres que o francês
de ti quer ser superior
só gostam do teu suor
do que lá vai uma vez

O que este emigrante diz
tudo pode acreditar
devia-se trabalhar
mas cada um no seu país
todo o que for infeliz
que passa por lá seis meses
fuma cigarros gauleses
porque são dos mais baratos
quer fazer novos tratos
quer ir duas ou três vezes

domingo, 26 de setembro de 2010

José Virgínia

"Vou dizer uma quadra que fiz dedicada à terra que não dá pão. Via tudo cerrado em mato por aí; os lavradores desprezaram os "montes" para irem para as cidades, venderam as parelhas e hoje está tudo caído e não habita lá ninguém. E então pensei fazer uma quadra a este assunto."

Mote

A terra já não dá pão
porque falta ser cultivada
está tudo cerrado em mato
e só se cria é bicharada

                I

Acham muito para pagar
ao pobre trabalhador
não sabem dar o valor
a quem anda no chão a cavar
não ganha para se tratar
anda roto vive em pelão
não coalha um tostão
passa a vida na miséria
e filho da mesma matéria
a terra já não dá pão

               II

O autor da natureza
eu não posso apoiar
porque nunca quis deixar
uns pedaços para a pobreza
uns terem tanta riqueza
e o pobre viver sem nada
trabalhando de empreitada
para dar produto ao país
e cada vez vemos mais crise
falta a terra cultivada

                III

Umas sopas de cebola
antes da manhã romper
tinha o pobre que comer
para abalar para a lavoura
uma rosa é uma papoila
o almocreve é exacto
deixa o caroço no prato
para não o deitar para a rua
e a miséria continua
está tudo cerrado em mato

São buldozers e tractor
fazem estradas sementeiras
mas choram pelas parelhas
estão a sofrer esta dor
o monte não tem valor
tem uma casa destelhada
e uma parede derrubada
não habita lá ninguém
e encontra-se mais de cem
só se cria é bicharada

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ceifeiros de Cuba

Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo
A terra paga-me em vida
Eu pago à terra em morrendo
(...)
Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão
Eu hei-de ir ao Alentejo
Mesmo que seja no Verão

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

José Virgínia

Uma Linda Quadra

Dedicada aos imigrantes

Mote

Ó país desabitado
Por uma doce ilusão
Uns p'ra qui outros p'ra lém
Já muitos poucos cá estão

Eu vejo tudo abalar
seja novo ou seja velho
vão procurar o mistério
porque podem trabalhar
seis contos não posso dar
para não ficar endividado
não quero pedir emprestado
para não ficar a dever
e por isso estou a sofrer
ó país desabitado

Eu pensei em abalar
tinha falta de lá ir
mas queria-me prevenir
para mim algum cá deixar
tenho as taxas a pagar
todas juntas num moitão
a carteira sem tostão
porque nasci pobrezinho
e à quem se meta ao caminho
por uma doce ilusão

Há muitos que para lá vão
que não deviam abalar
vão a vida estragar
têm cá dinheiro e pão
chegou à conclusão
portugueses mais de cem
isto é tudo um vai vem
só vão gozar e gastar
e todos querem experimentar
uns p'ra qui outros p'ra lem

Vejo tantas terras compradas
os prédios em construção
não ganhavam para o sabão
vivia-se em arramadas
hoje têm casas preparadas
~quem tenha bom coração
voltam sempre à geração
para cumprir o seu dever
e todo aquele que souber ler
já muito poucos cá estão

Este poema foi copiado do livro "Poetas Populares Alentejanos" de Modesto Navarro. É no livro apresentado como exemplo de décima editada em folheto pelo autor, sendo cada folheto vendido ao preço de 1$00. E, como era costume, vendido nas feiras e porta a porta.
Deduz-se, pelo tema, que terá sido escrito na década de sessenta do século XX. Quando o autor escreveu imigrantes, referia-se a Emigrantes.