quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O verso tem sempre uma moral subjacente. Neste caso, servindo-se da metáfora do melro preto, o autor (desconhecido) conta a patifaria praticada a coberto da noite:

O ladrão do negro melro
Toda a noite assobiou,
Mas, chegada a madrugada,
Bateu as asas... voou!

Aqui, apela-se à condescendência com a mulher que se comportou de forma menos digna:

Se vires a infeliz
Não a olhes com desdém;
Olha que a desgraçada
Já foi honesta também.

Nas bodas dos casamentos, quando é chegado o momento dos brindes - As saúdes - os que têm dotes para a rima, é assim que brindam:

Á saúde dos senhores padrinhos
E mais de toda a companha
E muitos parabéns ao noivo
Pela bela moça que apanha.

Também  o ritual pagão do dia da espiga é cantado:

Quinta feira de Ascenção
Saem as moças pró campo
De vestido cor-de-rosa
Na cabeça um laço branco.
Na cabeça um laço branco,
Trazem as espigas na mão,
Saem as moças pró campo,
Quinta feira de Ascenção.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ceifeiros de Cuba



Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada.

Ao passar da ribeirinha
Pus o pé, molhei a meia
Não casei na minha terra
Fui casar em terra alheia.

Fui casar em terra alheia
Por não querer casar na minha
Pus o pé, molhei a meia
Ao passar da ribeirinha.

...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Joaquim Pinto da Silva

Um releiro em esquadria
Molhos de espiga dourada
É o sonho do ganhão
Fazer uma linda carrada.

Ainda me lembro de ver
O pão que vinha p'rá eira
Subindo ou descendo a ladeira
O pão que hás-de comer
Como era lindo de ver
Sonhando o carro subia
Um molho a quilha fazia
Nesta planície dourada
Eu o via na chapada
Um releiro em esquadria.

Os molhos de cinto de pão
Depois da seara ceifada
Lembra-me a minha amada
Passeando nas noites de verão
E todos dizem que não!
Já lá vem a madrugada
Meu amor fica deitada
Migas me aquecem o peito
Já vejo de qualquer jeito
Molhos de espiga dourada.

Na chafariz água fresquinha
Começa a dar os bons dias
Manel segue outras vias
Lá prós lados da barquinha
Enquanto eu vou vou p'rá Aguentinha
Com a forquilha na mão
Zig-zag na estrada
Pois ela está mal tratada
Fazer a preceito a carrada
É o sonho do ganhão.

Ao restolho vou chegando
Ouço cigarras a cantar
O pó da estrada deixar
Como elas vou cantando
Como elas vou chiando
Não te posso oferecer nada
A jorna está acabada
Vou passar à tua rua
Vou p'rá eira à luz da lua
Fazer uma linda carrada.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

António Francisco Junior (António Flor)


Messejana terra antiga
Terra da minha glória
Não há ninguém que não diga
Que só te resta a história.

Foste terra de grande valor
Como diz o teu passado
Hoje tudo te têm tirado
Nada tens do teu esplendor
O teu destino é traidor
É que te invalida
Em tudo estás reduzida
Já nada consegues ser
Deitaram-te a perder
Messejana terra antiga

Tiveste alguns lagares
Moagens de farinha em rama
Fábrica de móveis com fama
Um lindo grupo de cantares
Hoje vão-te caindo os pilares
Se não me falha a memória
Dá a mão à palmatória
Que de ti se têm orgulhado
Tens o destino marcado
Terra da minha glória.

Antigamente tiveste
Algo de muito valor
Tiveste farmácia e doutor
E a todos assistência deste
Foste um arco celeste
Sei que há quem o não diga
Com suor e com fadiga
Mas longe tinhas fama
Hoje toda a gente reclama
Messejana terra antiga.

Na Senhora da Assunção
Situada nos olivais
Já lá se não fazem mais
As grandes festas de verão
No dia da Ascenção
Tenho disso a memória
Há a descriminatória
De tudo o que se passou
Já tudo o vento levou
Que hoje só te resta a história.

domingo, 17 de outubro de 2010

Modas alentejanas

A rama da oliveira
Deitada no lume estala
Assim é o meu coração
Quando contigo não fala.

-

Azeitona miudinha
Também vai ao "alagar"
Também eu sou pequenina
Mas sou firme no amar

Oliveirinha da serra
O vento leva a flor
Óhi! óhai
Só a mim ninguém me leva
Óhi! óhai!
Para ao pé do meu amor.

-

Óh rama que linda rama
Óh rama da oliveira
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira.

Que anda aqui na roda inteira
Aqui e em qualquer lugar
Óh rama óh que linda rama
Óh rama do olival.

-

À entrada desta rua
Dei um ai, abriu-se o chão
Sepultaram-se as estrelas
Morreu o céu com paixão.

-

Já se acabou a azeitona
Já se acabou o dinheiro
Vamos todos a dar vivas
Ao nosso patrão engenheiro.

Quando o sol nasce inclina
Na bandeira castelhana
Mais vale um dia de amor
Que a jorna de uma semana.

-

Meu amor por me deixar
Pensava que eu morria
Cada vez meu coração
Canta com mais alegria.

À minha porta está lama
À tua é um lameiro
Quando falares de mim
Olha para ti primeiro.

Diz-me lá se caso queres
Fazer as pazes comigo
Dá a mão à palmatória
Voltemos ao tempo antigo.

Esse teu dar à cabeça
causa-me admiração
Quando tens mosca de inverno
Que fará em vindo o verão.

-

Quem me dera que voltasse
O tempo da mocidade
Em que mesmo na miséria
Era feliz de verdade.

Por esse campos sem fim
Cantava com alegria
Mesmo trabalhando sempre
Do nascer ao pôr do dia.

Agora é tudo tão triste
Mesmo tendo vida boa
Que eu ao olhar para mim
Julgo-me outra pessoa.

Mas quando há ocasião
Ainda gosto de cantar
Gosto de me advertir
E o passado recordar.

-

Perguntei a uma mãe
Qual era a dor mais sentida
Se ter um filho na guerra
Ou uma filha na vida.

Essa mãe me respondeu
Em tom triste e amargurado
Para maior desgosto meu
Tenho um em cada lado.

-

Não é o ceifar que custa,
Nem o rigor do Verão;
É o ladrão do macaco*
E o cardo beija-mão.

*Dor nas costas, provocada pela postura a que o corpo é forçado.

-

Adeus oh! vila de Ourique
Já lá tens o que tu querias,
Já tens o Tribunal
À custa das freguesias.

Um homem nunca devia
A mocidade deixar
Nem nunca se fazer velho
Para não deixar de amar.

-

Olha a República que já veio
fazer andar os homens todos num enleio,
Todos num enleio todos num leilão,
E Viva a República!... Viva a Nação!

Estas, são canções de trabalho - modas, no dizer alentejano - que eram cantadas nas safras da apanha da azeitona, das sementeiras, da monda, das ceifas, da debulha.Constam de um interessante texto publicado nos
Cadernos Culturais (nº. III), de Messejana. Modas que eram cantadas também no caminho para o trabalho ou para casa e nas adiafas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

António Maria Coelho

Manuel de Jesus Silveira

Rego abaixo rego acima
eu atrás do meu arado
faço a minha obrigação
eu também sou um soldado

Nem só com armas de guerra
se defende uma nação
eu atrás do meu arado
faço a minha obrigação

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Manuel de Jesus Silveira

Eu via na minha frente
a conta mal dividida
uns trabalharem demais
outros gozarem a vida

Se o Zé Povinho pequeno
tivesse conhecimento
não havia tanto avarento
cá dentro do nosso reino
dividiam o terreno
chegava para toda a gente
porque a terra permanente
cultivada tudo deu
estar a roubar do que é meu
eu via na minha frente

Quem trabalhava muito comia mal
quem trabalhava pouco comia bem
têm contos mais de cem
e o pobre sem ter real
eram senhores do capital
de boa perna estendida
fazendo a nós a partida
para o banco nacional
o que eu via em Portugal
era a conta mal dividida

O grande cultivador
trabalhava noite e dia
era quem lhe dava a valia
eles roubavam-lhe o valor
trabalhava ao frio e ao calor
suspirando e dando ais
os filhos ao pé dos pais
choravam que não tinham pão
era por essa razão
que uns trabalhavam demais

Eu não os via trabalhar
só lhes via prata e ouro
onde tinham esse tesouro
que tanto dinheiro iam buscar
eu só os via passear
no largo e na avenida
não lhes conhecia outra vida
que era viajarem de carro e trem
só os via comer bem
e gozarem boa vida