sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Manuel Vagarinho

O Manuel Vagarinho, como ficou claro no seu primeiro poema aqui publicado, é natural de S. Cristóvão, concelho de Montemor-O-Novo. O amor à sua terra é cantado por si desalmadamente, traço que é comum à generalidade dos poetas populares - aí estão os sítios das suas primeiras memórias, tudo é o mais bonito, a água é a mais fresca, etc.
M. Vagarinho nasceu em 1938. O trabalho do campo foi o seu primeiro, que se prolongou até à idade do serviço militar. Depois foi ferroviário até à idade da reforma.
Cantador de desgarradas. Poeta. Caçador. E a caça é o seu motivo principal de inspiração: Caçadores da nossa terra/Que não quebram tradição/Do que se mata e se erra/Vem hoje a recordação.
Recordações de Três Décadas de Caçadas às Raposas, É uma edição de autor que reúne os poemas de sua autoria dedicados à caça, escritos entre 1976 e 2007.

Logo à primeira batida
Foi barrigada de rir
Houve uma arma partida
Para apanhar uma a fugir

Já ia ferida de dois
Era bicha muito fina
Viemos a a saber depois
Que cheirava a gasolina

No vale grande da pescainha
Vi um homem cair no laço
Errou uma assim escurinha
Por lhe parecer um sargaço

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Manuel Custódio Teles Vagarinho

Mote

S. Cristóvão meu amor
Sempre no meu coração
Não conheço outro valor
Nesta pequena Nação

I

A tua igreja centenária
O lindo som do teu sino
Amo desde pequenino
A tua escola primária
Nunca esqueço a secretária
A cadeira do professor
O mapa com sua cor
Deste nosso Portugal
Como tu não há igual
S.Cristóvão meu amor

II

O lindo largo à entrada
É a sala de visitas
Tens tantas coisas bonitas
Ó minha terra adorada
Sempre limpa e asseada
Tudo para mim é paixão
Mostras assim a razão
Porque eu te adoro tanto
És terra do meu encanto
Sempre no meu coração

III

A sede da sociedade
O palco de actuações
São boas recordações
Dos tempos da mocidade
Ser teu filho tenho vaidade
É lindo seja o que for
Tudo feito com rigor
Com paz e boa harmonia
Sinto em mim grande alegria
Não conheço outro valor

IV

A tua ponte velhinha
Onde as aves fazem ninhos
Os açudes e os moinhos
Que faziam a farinha
A fonte com água fresquinha
Para toda a população
A moagem que moía o grão
Juntinho a ela o lagar
Nenhuma te pode igualar
Nesta pequena Nação

terça-feira, 29 de junho de 2010

Maria José Branco de Assunção



Só canto a ti Alcochete

Eu só canto à minha terra
À sua história imortal
Minh'Alcochete velhinha
Tu foste berço real

Dom Manuel, aqui nasceu
Rei que foi o "venturoso"
Tu em beleza, és rica
Teu passado glorioso

Teus monumentos sagrados
Revelam tanta nobreza
És um mimoso cantinho
Tens alma, bem portuguesa

El-Rei Dom Manuel Primeiro
Desta Alcochete velhinha
Recorda ao mundo inteiro
Qu'és terra mãe e rainha.
Teu passado glorioso

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Maria José Branco de Assunção

Alcochete terra linda

Alcochete terra linda
Sobre o Tejo debruçada
A sua beleza infinda
Merece bem ser cantada

É beijada pelo Tejo
E tem campos verdejantes
Noutro tempo teve ensejo
Ser terra de navegantes

Aqui vinham caravelas
à volta das descobertas
E a maruja vinha nelas
Pagar ao santo as ofertas

Hoje os homens outros são
Mas o sangue o mesmo vale
Uns trabalham no carvão
Outros trabalham, no sal

Descalços de pé e perna
Junto às águas cristalinas
Assim dão a vida inteira
à riqueza das salinas

Gente do campo e do mar
Cada qual tem seu valor
Mas são iguais a lutar
Mareante ou lavrador

Não sabem causar um dano
Seja embora desgraçado
Porque ser alcochetano
É ser bom, é ser honrado

Alcochete, minha terra
Tem brasão e galhardete
Seja na paz ou na guerra
Honro-me em ser de Alcochete

(poema escrito em 1940)

Maria José, nasceu em Alcochete em 1920. Foi funcionária administrativa do Registo Civil em Alcochete e Lisboa. A sua terra natal é um permanente motivo de inspiração.

domingo, 20 de junho de 2010

Augusto António Bico

Você lamenta eu lamento
Qual de nós tem mais razão
Você gastou sem proveito
Eu perdi dinheiro e patrão

Você grita e com certeza
Que tem razão para gritar
Gastou tornou a gastar
E perdeu toda a despesa
Mas falando com franqueza
Os engenheiros de talento
Têm tido desmoronamento
Em obras de tal qualidade
Por causa da profundidade
Você lamenta eu lamento

Não podia adivinhar
Se o terreno era firme
É um estudo sublime
Onde não posso chegar
Aprendi a trabalhar
Trabalho com precisão
É de onde me vem o pão
Com que sustento os meus filhos
Mas vim de lá sem cadilhos
Qual de nós tem mais razão

O Sr Tavares com certeza
Que já tem perdido mais
Como tem muitos cabedais
Não diminui a riqueza
Essa grande despesa
Que diz fazer por meu respeito
Quando há qualquer desfeito
Recai sempre sobre o pequeno
Por causa do seu terreno
Você gastou sem proveito

Quem ficou pior fui eu
Fui o mais prejudicado
Vim com o corpo bem ralado
Sem um real de meu
Tudo ali me escarneceu
Até o mais rude ganhão
A minha aptidão
Só ali ficou perdida
E se não perdi a vida
Perdi dinheiro e patrão

Augusto Bico, natural de Alcácer do Sal, nasceu em 1856 e faleceu em 1934, sendo carpinteiro de profissão.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

João Falé Baião


O meu cantar é falando
Só falando sei cantar
A minha voz desafina
Não a posso controlar

Gosto de ouvir cantar bem
Quando a sua voz ajuda
E quando o som se não muda
No peito de quem o tem
Ouço porém cantar alguém
P'ra sua mágoa ir espalhando
Dizem muita poisa cantando
E tudo lhe fica bonito
Por isso digo e repito
O meu cantar é falando

Quando a voz não nos ajuda
Ninguém pode cantar bem
O dom é de quem o tem
Senão logo a coisa muda
Todo aquele que canta e estuda
Também tem que bem pensar
Para fundamento arranjar
Na sua bonita canção
É só esta a razão
Que eu só falando sei cantar

O fundamento no cante
Tem muito que se lhe diga
Cantar bem uma cantiga
Não é para toda a gente
O prazer é de quem sente
Mesmo ao som da concertina
A sua frase se aproxima
Aí define o seu saber
Isso não posso eu fazer
Que a minha voz desafina

Mesmo que queira ser bom
Quando a voz não é brilhante
Logo mostra a toda a gente
Que nada vale o seu som
Destravia o acordeom
E nada pode rimar
Nunca poderá acabar
Tem a voz sempre no fim
Assim me acontece a mim
Não a posso controlar

O João Falé Baião nasceu em 1920 em São Marcos do Campo/Reguengos de Monsaraz, tendo estabalecido residência no Escoural. Não frequentou a escola, aprendeu a ler e a escrever com familiares seus. A sua profissão sempre foi trabalhador rural. Faz décimas desde os 15 anos.


terça-feira, 15 de junho de 2010

José Augusto Ferrão

Nota prévia: Quando criei o rimapontocom, em 19/10/09, utilizei o mote deste poema, por o considerar lapidar de uma filosofia de vida. JAF expressa nele uma sabedoria respeitável. Por essa razão é hoje o seu poema inserido aqui integralmente.

Diz-me agora aqui burguês
Quem é que tanto te deu
Quando tu vieste ao mundo
Vieste nu como eu

Caíste entre almofadinhas
Nasceste como um tesouro
Teus pais deram-te um berço de oiro
E boas roupas quentinhas
Eu tive humildes palhinhas
A minha sorte talvez
Eu não vi uma só vez
Como tu tanta riqueza
De onde veio a tua nobreza
Diz-me agora aqui burguês

Tantas herdades florindo
Logo ao nascer tu tiveste
Mas do sítio de onde vieste
Elas não podiam ter vindo
Embora dinheiro possuindo
Tua mãe ao ter-te sofreu
Mas a minha mais padeceu
Que a miséria traz sofrimento
Mas se és rico avarento
Quem é que tanto te deu

Esse tesouro afamado
Quando ao mundo chegaste
Já juntinho encontraste
Pelo teu pai arranjado
Mas lembra-te que foi roubado
A quem com esforço profundo
Cavava a terra sem fundo
E lamentava o seu mal
O teu pai veio tal e qual
Como tu vieste ao mundo

És rico e vives contente
A ti não te falta nada
Tens uma casa recheada
Devias ser indulgente
Repartires com toda a gente
Que o que tens lá não é teu
É de quem o celeiro encheu
Regando a terra com suor
Enquanto tu explorador
Vieste nu como eu

segunda-feira, 14 de junho de 2010