domingo, 31 de outubro de 2010
Cante ao despique
Messejana n'algum dia
tiveste bons cantadores
e no despique cantavam
sempre com muita alegria
tiveste bons cantadores
Messejana n'algum dia.
Quem me dera ouvir cantar
como se ouvia algum dia
os cantadores de despique
belos serões alegrar
como se ouvia algum dia
quem me dera ouvir cantar.
...
Tudo o que há nesta vida
um dia tem de morrer
nã vale a pena andares
assim tão iludida
tudo o que há nesta vida
É triste um homem andar
a trabalhar para aquecer
trabalhar de sol a sol
e não ter dinheiro para gastar
a trabalhar para aquecer
é triste um homem andar.
Messejana de algum dia
eras bonita a valer
mas com o correr do tempo
perdeste a fidalguia
eras bonita a valer
Messejana de algum dia.
...
Desta vida de tristeza
eu já não espero nada
vejo chegando o meu fim
disso tenho a certeza
eu já não espero nada
desta vida de tristeza.
nunca vivi desafogado
e a vida não me deu nada
cheguei ao fim da jornada
estou já velho e cansado
a vida não me deu nada
nunca vivi desafogado.
tiveste bons cantadores
e no despique cantavam
sempre com muita alegria
tiveste bons cantadores
Messejana n'algum dia.
Quem me dera ouvir cantar
como se ouvia algum dia
os cantadores de despique
belos serões alegrar
como se ouvia algum dia
quem me dera ouvir cantar.
...
Tudo o que há nesta vida
um dia tem de morrer
nã vale a pena andares
assim tão iludida
tudo o que há nesta vida
É triste um homem andar
a trabalhar para aquecer
trabalhar de sol a sol
e não ter dinheiro para gastar
a trabalhar para aquecer
é triste um homem andar.
Messejana de algum dia
eras bonita a valer
mas com o correr do tempo
perdeste a fidalguia
eras bonita a valer
Messejana de algum dia.
...
Desta vida de tristeza
eu já não espero nada
vejo chegando o meu fim
disso tenho a certeza
eu já não espero nada
desta vida de tristeza.
nunca vivi desafogado
e a vida não me deu nada
cheguei ao fim da jornada
estou já velho e cansado
a vida não me deu nada
nunca vivi desafogado.
Segundo Mª. Vitória de Brito Ruas, "apareciam na venda (...) desafiavam-se uns aos outros para cantar (...) um cantador lançava ao ar uma quadra, que podia ser sobre o tempo, as lavouras, outros trabalhos do campo, ou entrando a meter-se nalguns podres da vida de alguém do grupo, ou de qualquer ocorrência".
"Lançada ao ar essa quadra, o cantador seguinte cantava (...) concordava ou não com o primeiro (...) por isso se chama despique".
"Antes de começar o cante escolhiam o ponto, que era a última sílaba do segundo verso da quadra (...) poucos cantadores aguentavam muito tempo a cantar; faltavam-lhe as palavras (...) quando algum cantador repetia a palavra do ponto que já havia sido usada por outro cantador, diz-se que pisava o ponto e era por isso penalizado. A pena consistia em pagar uma rodada de copos".
"Na quadra de despique há o dobre, isto é, o primeiro verso é o que termina a estrofe; depois tem a rima abraçada que são os dois versos soltos, entre o primeiro e o quarto, que não rimam, e o último da quadra que rima com o primeiro".
sábado, 30 de outubro de 2010
Do cante alentejano, do bailarico, do mastro, do S. João
A treze do mês de Junho
Santo António se promove
S. João em vinte e quatro
E o S. Pedro a vinte e nove..
...
Aperta-me a minha mão
té que eu diga deixa amor
Quem mais aperta mais quer
Quem mais quer não sente dor.
Eu não sei que sinto amor
Quando chegas a meu par
Sinto dentro do meu pêto
Um coração palpitar.
...
Maria da Rocha
Da Rocha rochedo
Quem namora a Rocha
Não deve ter medo!
Não deve ter medo
E medo não tem
Maria da Rocha
Da Rocha, meu bem.
Santo António se promove
S. João em vinte e quatro
E o S. Pedro a vinte e nove..
...
Aperta-me a minha mão
té que eu diga deixa amor
Quem mais aperta mais quer
Quem mais quer não sente dor.
Eu não sei que sinto amor
Quando chegas a meu par
Sinto dentro do meu pêto
Um coração palpitar.
...
Maria da Rocha
Da Rocha rochedo
Quem namora a Rocha
Não deve ter medo!
Não deve ter medo
E medo não tem
Maria da Rocha
Da Rocha, meu bem.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Do Cante alentejano
Eu aprendi a cantar
lavrando a terra molhada
lá na solidão dos campos
pensando em ti minha amada.
...
Minha terra verde malva
nas primaveras floridas
um sonho quente de verão
nas campinas ressequidas.
..
Montes na planície a alvejar
são contas dum rosário de saudades
fontes de silêncio a escutar
o cante dos ceifeiros nas herdades.
...
Minha campina amarela
da cor do vento suão
onde crescem ilusões
de misturar com o pão.
Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu
abrigue-se aqui menina
debaixo do meu chapéu.
O Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu
assenta-te aqui amori
à sombra do mê chapéu.
lavrando a terra molhada
lá na solidão dos campos
pensando em ti minha amada.
...
Minha terra verde malva
nas primaveras floridas
um sonho quente de verão
nas campinas ressequidas.
..
Montes na planície a alvejar
são contas dum rosário de saudades
fontes de silêncio a escutar
o cante dos ceifeiros nas herdades.
...
Minha campina amarela
da cor do vento suão
onde crescem ilusões
de misturar com o pão.
Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu
abrigue-se aqui menina
debaixo do meu chapéu.
E a criatividade do cantor permitia-lhe fazer a sua própria composição, servindo-se do fundamental da quadra, adaptava-a à sua linguagem:
O Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu
assenta-te aqui amori
à sombra do mê chapéu.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Joaquim da Costa Velhinho
Ainda do Velhinho, publico o seu poema Pragasina.
Versa sobre o seu amor por uma mulher, que o trocou por outro. Para vingar-se compôs este poema, que é como quem diz, rogou-lhe uma praga!
Os céus que faltem, oh! ingrata,
Que nada tenhas que mandes (?!)
Que dentro dum cesto andes // Entrevada!
E à borda de uma estrada
Te ponham em padiola
Pedindo esmola // A quem passar!
E quem para ti olhar
De te ver tenha vergonha,
E que a mesma peçonha // De ti fuja!
Vida tenhas de corucha!*
Do morcego a liberdade
Vivendo na escuridade // Pois é falsa!
Antes despida e descalça!
Que de te ver fuja a gente!
Que nem d'amigo nem parente // Te socorras!
E assim como Judas morras
Enforcada!
*Suponho que esta palavra queira dizer: coruja.
Resta dizer que continuo a ter como fonte, os Cadernos Culturais de Messejana.
*Suponho que esta palavra queira dizer: coruja.
Resta dizer que continuo a ter como fonte, os Cadernos Culturais de Messejana.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Joaquim da Costa Velhinho
Isto de cantar é arte
Que Deus deu às criaturas
Quem não sabe tactêa
Como se estivesse às escuras.
...
O diabo te leve arado
E mais a mão que te fez!
Mais de cento e uma vez
Já te tenho excomungado!
Um homem com um machado,
Ahi de qualquer chamiço
Faz um arado inteiriço
Para um boi e p'ra uma vaca!...
Não lhe bonda andar d' estaca
E ainda é engasgadiço!...
Fala o Velhinho:
Tenho casas assombradas
E de marfim são as telhas.
De bois tenho cem parelhas,
De éguas oitenta manadas,
E mil vacas afilhadas
Com uma linda criação,
Sou forte como Sansão
P'ra vencer toda a Turquia,
E tenho mais sabedoria
Do que teve Salomão.
Ao que Pôtra responde prontamente:
Dessa tua abonação
Muito me farto de rir!
Eu sempre semeei em Abril
Quatrocentos moios de pão -
-Não falando do temporão
Que foram eles dobrados!
Tenho oitenta mil cruzados
E herdades noventa mil!
Já é meu todo o Brazil!
Tenho em Hespanha cem morgados!
Que Deus deu às criaturas
Quem não sabe tactêa
Como se estivesse às escuras.
...
O diabo te leve arado
E mais a mão que te fez!
Mais de cento e uma vez
Já te tenho excomungado!
Um homem com um machado,
Ahi de qualquer chamiço
Faz um arado inteiriço
Para um boi e p'ra uma vaca!...
Não lhe bonda andar d' estaca
E ainda é engasgadiço!...
Velhinho, de Messejana, era ganhão, morreu cerca de 1870. Sabia ler e mal escrever, mas era um bom fazedor de poesia.
O despique era uma tradição muito viva e praticado com frequência, mobilizando os poetas e cantadores dos mais recônditos lugares.
As décimas que se seguem são disso um exemplo, em que Velhinho se confronta com o poeta Pôtra - Braz Martins Beirão, pastor, analfabeto, da vila de Cuba, que a Messejana se deslocou para despicar...
Fala o Velhinho:
Tenho casas assombradas
E de marfim são as telhas.
De bois tenho cem parelhas,
De éguas oitenta manadas,
E mil vacas afilhadas
Com uma linda criação,
Sou forte como Sansão
P'ra vencer toda a Turquia,
E tenho mais sabedoria
Do que teve Salomão.
Ao que Pôtra responde prontamente:
Dessa tua abonação
Muito me farto de rir!
Eu sempre semeei em Abril
Quatrocentos moios de pão -
-Não falando do temporão
Que foram eles dobrados!
Tenho oitenta mil cruzados
E herdades noventa mil!
Já é meu todo o Brazil!
Tenho em Hespanha cem morgados!
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Sofia, de Messejana
Amôr é candeia acêsa
No peito de quem o tem,
É vontade de estar presa
Entre os braços do seu bem.
Amôr é gado na fôrra
De vontade encurralado,
É mocidade na bôrra
Desarmado do cuidado.
Amôr é sonho florido
Vai no vento como o fumo,
Rapariga sem marido
Perde na vida seu rumo.
Amor é fogueira ardendo
Dentro de nós sem se ver,
É cancro que vai comendo
Devagar, até morrer.
É uma ribeira corrente
De pedra em pedra a saltar
Murmulhando docemente
Vai-se, perder-se no mar.
É uma vela sempre a arder,
É mal que bem se acata,
Queima e não nos faz doer,
É nó que a morte desata.
O amor é sempre int'resseiro
E por vezes criminoso
Nem até um verdadeiro
Faz qualquer ente ditoso.
No peito de quem o tem,
É vontade de estar presa
Entre os braços do seu bem.
Amôr é gado na fôrra
De vontade encurralado,
É mocidade na bôrra
Desarmado do cuidado.
Amôr é sonho florido
Vai no vento como o fumo,
Rapariga sem marido
Perde na vida seu rumo.
Amor é fogueira ardendo
Dentro de nós sem se ver,
É cancro que vai comendo
Devagar, até morrer.
É uma ribeira corrente
De pedra em pedra a saltar
Murmulhando docemente
Vai-se, perder-se no mar.
É uma vela sempre a arder,
É mal que bem se acata,
Queima e não nos faz doer,
É nó que a morte desata.
O amor é sempre int'resseiro
E por vezes criminoso
Nem até um verdadeiro
Faz qualquer ente ditoso.
Nota: transcrição tal como publicado nos Cadernos Culturais (nº.IV) de Messejana.
Sofia dos Remédios Passanha de Morais Afonso Romano, cuja data de nascimento desconheço, faleceu no ano de 1897.
domingo, 24 de outubro de 2010
Rafael Augusto Rodrigues
O Rafael, convidado para participar num debate sobre democracia e justiça social, recentemente realizado, resolveu participar assim:
Depois de ter sido convidado, cá estou presente
Como vai sendo habitual
Para falar, de tanta ruim gente
Que ainda existe em Portugal.
São tantos a mentir
Qual deles o maior mentiroso
Para me poderem impingir
Por me verem já IDOSO.
Contando pelos dedos, já cá cantam 87
Só que os dedos da mão, não são iguais
Ao ter conhecimento, do que se promete
É ver qual deles rouba mais.
Gosto muito de ler, escrever e ver televisão
Sendo a forma de me entreter
Ficando gravado no meu coração
O que muitos, não se cansam de prometer.
De eu tanto ter reclamado
Verifico que nada resulta
Porque na imprensa só é publicado
O que diz respeito à FACE OCULTA...
Pantomineiros, vigaristas e mafiosos
Com as suas típicas maneiras de falar
Tentando sempre enganar, alguns idosos
É um nunca mais acabar.
Alguns julgam-se com muita cultura
Mas só o que sabem é fazer mal
No que vou tendo conhecimento pela leitura
Todos os dias em tanto jornal.
De assim eu escrever, peço desculpa
Porque o que escrevo é só a verdade
Mas se me considerarem alguma culpa
Só poderá ser atribuída, à minha idade.
De eu só assim, saber escrever
Será talvez, uma minha "mania"
Para depois, quem a puder ler
Apreciar, a minha modesta poesia.
"Aviso aos nossos governantes"
Daqui lhes lanço esta aviso
Lembrem-se de praticar o bem
VEJAM SE TEM JUIZO
Porque vocês morrem também.
Depois de ter sido convidado, cá estou presente
Como vai sendo habitual
Para falar, de tanta ruim gente
Que ainda existe em Portugal.
São tantos a mentir
Qual deles o maior mentiroso
Para me poderem impingir
Por me verem já IDOSO.
Contando pelos dedos, já cá cantam 87
Só que os dedos da mão, não são iguais
Ao ter conhecimento, do que se promete
É ver qual deles rouba mais.
Gosto muito de ler, escrever e ver televisão
Sendo a forma de me entreter
Ficando gravado no meu coração
O que muitos, não se cansam de prometer.
De eu tanto ter reclamado
Verifico que nada resulta
Porque na imprensa só é publicado
O que diz respeito à FACE OCULTA...
Pantomineiros, vigaristas e mafiosos
Com as suas típicas maneiras de falar
Tentando sempre enganar, alguns idosos
É um nunca mais acabar.
Alguns julgam-se com muita cultura
Mas só o que sabem é fazer mal
No que vou tendo conhecimento pela leitura
Todos os dias em tanto jornal.
De assim eu escrever, peço desculpa
Porque o que escrevo é só a verdade
Mas se me considerarem alguma culpa
Só poderá ser atribuída, à minha idade.
De eu só assim, saber escrever
Será talvez, uma minha "mania"
Para depois, quem a puder ler
Apreciar, a minha modesta poesia.
"Aviso aos nossos governantes"
Daqui lhes lanço esta aviso
Lembrem-se de praticar o bem
VEJAM SE TEM JUIZO
Porque vocês morrem também.
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